[Consciência Gamer] A História ao toque de um botão

Assassins-creed_altair_survays_city

O ser humano adora alterar a própria história em ficções. Sejam em filmes, livros, quadrinhos ou jogos, a influência da história mundial estará presente. Até mesmo em situações futuristas o ser humano não consegue se desprender totalmente, tornando o futuro fictício um reflexo do que se vive hoje, mesmo que a obra se passe muitos e muitos séculos adiante.

Algumas épocas em específico parecem fascinar mais as pessoas, até mesmo aquelas que não buscam estudar a fundo. Acredito sinceramente que a que mais desperta esse interesse seja a Idade Média (até mesmo mais do que a riquíssima antiguidade clássica). Conhecida como Idade das Trevas. A falta do racionalismo e o excesso de fervor religioso levaram os renascentistas e iluministas a determinarem-na como uma era de absoluta deterioração cultural.

E mesmo assim gera fascínio absoluto. Talvez isso advenha do fato de que muita coisa naquela época era absolutamente diferente do que é hoje, sendo o período posterior – a Idade Moderna – muito mais parecida com a configuração da sociedade em que vivemos atualmente. Outra coisa que deve influenciar é a pouca produção historiográfica da época, o que nos deixa bastante afastados dessa época, que era excessivamente supersticiosa. É como se fosse um tempo tão distante que era literalmente um conto de fadas (não muito feliz, que fique registrado aqui).

Típica imagem representando a Idade Média

Típica imagem representando a Idade Média. No caso, uma coroação e unção de rei.

Inúmeras lendas e histórias surgem de lá. O Rei Artur talvez seja o mais conhecido, mas basicamente o “salvar a princesa no castelo” tem raízes fortíssimas na Idade Média, com suas belas donzelas e príncipes corajosos sempre permeando nosso imaginário quando pensamos na época. As longas e penosas jornadas que empenhamos em jogos como Fable ou The Elder Scrolls certamente podem ser reflexo das Cruzadas, evento que marcou do século XI ao XIII, com enormes movimentos militares que partiam da Europa à Palestina. Além de meramente militar, eram também movimentos de penitência ou pagamento de promessas, como nos lembra o historiador Jonathan Simon Christopher Riley-Smith (eita nome comprido!).

Clique para continuar a leitura!

Anúncios

[Especial Dreamcast] O (a)deus da Sega!

Escrito por Henrique e Rodrigo.

Correção e edição final por Neto

Leitores e leitoras do Jogador Pensante, é com muita honra que este mês oferecemos a vocês uma pequena homenagem ao mais charmoso, saudoso e intrigante console da história dos videogames: O glorioso DREAMCAST!

O Dreamcast foi o primeiro representante da sexta geração de videogames formada ainda pelo Playstation 2, Game Cube e Xbox. O console surgiu como sucessor do Sega Saturn que era concorrente direto do PlayStation, chegando para realmente superar a Sony e a Nintendo no mercado de videogames caseiros, pois o Dreamcast era supremo em sua época, com grande potência gráfica, acessórios diversos que o tornavam realmente especial, e, sobretudo, altíssima qualidade de suas peças e periféricos, como o lendário controle confortável e com um analógico indestrutível, diferentemente dos controles oferecidos pela concorrência Sony e Nintendo.

O desenvolvimento do Dreamcast foi iniciado em 1997, e veio enquanto resposta da SEGA às dificuldades passadas pela empresa em razão da derrota sofrida pelo Sega Staturn contra o PlayStation e o Nintendo 64. A empresa precisava tomar uma atitude, e foi dessa necessidade que surgiu o projeto, inicialmente nomeado de Black Belt, quando a SEGA trabalhava junto à 3Dfx no desenvolvimento do console, mas posteriormente rebatizado seguidamente de Dural, Katana, até, afinal, Dreamcast (abreviação de Dream Broadcast), que foi o nome definitivo do resultado do projeto desenvolvido pela SEGA em associação com a NEC, responsável pela “GPU” NEC PowerVR, e Hitachi, que produziu a “CPU” Hitachi SH4.

O console foi lançado no nono dia do nono mês do milésimo nongentésimo nonagésimo nono ano do Senhor, ou seja, em 09/09/1999, e fez grande sucesso. Na indústria dos videogames ainda não foi batido o recorde alcançado pela SEGA que conseguiu vender 500.000 unidades do console em um único dia no lançamento americano. E o console também foi lançado oficialmente no Brasil, no mês de outubro de 1999, onde também causou muito frenesi entre os amantes dos games, ansiosos por desfrutar toda a altíssima tecnologia oferecida pelo console.

O console e seu controle.

Dentre as iguarias tecnológicas vindas junto ao Dreamcast, entravam-se delícias como os gráficos jamais antes vistos e que eram muito melhores que os apresentados pelos consoles anteriores. Poder jogar Sonic Adventures, totalmente tridimensional e com a velha e prazerosa impressão de alta velocidade era algo que todos queriam. Do mesmo modo, jogar o belíssimo, estonteante, equilibrado Soul Calibur também era um bem que 100% dos gamers da época queriam desfrutar. Ainda o console contava acessórios interessantes como a Vara de Pesca, que reproduzia na sala de casa o que somente os games árcades de pesca podiam oferecer.

Sonic Adventure

Outro destaque era seu memory card, que também chamava a atenção por ser meio exótico: A VMU (Visual Memory Unit), como era chamado,  inovava oferecendo jogatinas mesmo após o desligamento do console. O acessório era como um portátil e tinha uma microtela com várias funções.

Caixa da VMU.

Finalmente, com o apoio da Microsoft, o console ganhou um sistema operacional de nome Windows CE, que permitia transformar o console em um PC, com direito a teclado e mouse.

O controle com a VMU inserida.

Mas, a grande inovação, da qual sentimos reflexo até hoje (aliás, sobretudo atualmente), é o mundo dos games online através da internet, com o surgimento das comunidades de jogatina pela rede. Sim, o Dreamcast foi o precursor das partidas multplayers pela internet afora, com games de tiro, como Quake III e mesmo RPGs, como o MMO Phantasy Star Online. O videogame possuía suporte para um adaptador de modem que ligava console à rede mundial de computadores, propiciando a diversão entre jogadores de todas as partes do mundo. Ainda, o console, em razão da possibilidade de utilização do Windows CE, possuía também um browser, que permitia ao jogador navegar pela internet, assim como nos videogames da atualidade.

A série Phantasy Star Online.

O console branco da SEGA utilizava uma unidade de mídia exclusiva denominado GD, o Giga Disc. Sua capacidade de armazenamento de até 1.2Gb e eram produzidos em conjunto com a Yamaha. Apesar do uso de uma midia específica a pirataria no console não foi impedida e o Dreamcast recebia jogos piratas com a mesma facilidade do PlayStation. Bastava apenas um disco de boot, que mais tarde foi eliminado e os jogos nem dos discos precisariam mais para rodar no console.

No Brasil, o Dreamcast fez grande sucesso, tinha um preço atraente, pois custava o mesmo que um Nintendo 64, que oferecia gráficos muito abaixo do novo aparelho da SEGA. Apesar desse sucesso no país, o Brasil ainda era um pais emergente (ainda é, na verdade, mas naquela época o mercado de games aqui não era ínfimo se comparado ao que se vê atualmente) e assim não conseguiu evitar a queda do console, e da própria SEGA, enquanto produtora de consoles caseiros.

Apesar de toda a sua polivalência, o Dreamcast ainda era um console. E um videogame sem jogos, não sobreviveria. Sendo assim bons games era o que não faltavam no console da SEGA! Pelo menos de inicialmente…

Sem sombra de dúvidas, o Dreamcast possuía uma das melhores lineups de lançamento, com jogos como Sonic Adventure e Soul Calibur, acompanhados de Blue Stinger, Mortal Kombat Gold, Monaco Gran Prix, Marvel vs Capcom, House of The Dead 2 e a NFL da 2k (a série 2k fez grande sucesso no console; além do jogo de futebol americano ao longo da vida do console surgiram vários outros de diferentes esportes). A SEGA precisava criar grandes projetos para seu console no combate ao PlayStation, que em breve já seria sucedido por um novo console da Sony, o PlayStation 2.

Capa de Soul Calibur, franquia que nasceu no Dreamcast e perdura até hoje.

Como se pode perceber, não é de se estranhar que o console tenha  vendido 500.000 unidades somente no dia do lançamento, com várias pessoas comprando o videogame e tendo que escolher 3 ou 4 games entre as inúmeras opções. Os exclusivos do console eram muito autenticos, a SEGA trabalhou bem em criar novas series para o mercado. Crazy Taxi desenvolvido em seus estúdios internos é o que fez maior sucesso. A ideia do jogo é estupidamente simples, mas incrivelmente divertida: sua missão é levar os passageiros de um ponto A para o B, correndo loucamente por São francisco. Mesmo sendo simples, o jogo divertia demais, as missões eram uma mais criativa que a outra e os caminhos exigidos em algumas missões eram desafiadores.

E também haviam outros games de excepcional qualidade para o console, como o extraordinário J-RPG Skies of Arcadia e o jogo de manobras de patins, utilizando gráficos Cel-Shading, chamado Jet Grind Radio. Além, é claro, de games que também figuravam no PlayStation, como Soul Reaver, Nightmare Creatures 2 ou Star Wars Demolition, mas com a diferencial: a qualidade gráfica alcançada pelo por esses games quando jogado no Dreamcast era muito maior a oferecida pelo PlayStation. Até mesmo games lançados apenas para Dreamcast e PC, como Hidden and Dungerous e Slave Zero, por exemplo, acabavam apresentando desempenho superior no console da SEGA, em detrimento dos PC’s, que na época não era exatamente máquinas para jogar, como são atualmente.

Jet Grind Radio

O Dreamcast ganhou muitos jogos importantes e que auxiliaram a elevar o nível do mercado, mas nenhum pode se comparar a Shenmue. Um clássico, cujo orçamento foi o mais elevado já feito na época, impressionantes US$ 49.000.000,00 (quarenta e nove milhões de dólares), montante que corrigido e atualizado chega a cerca de US$ 70.000.000,00. Tal cifra coloca Shenmue como o 3º jogo mais caro da historia até hoje, atrás apenas de Gran Turismo 5 e GTA IV, respectivamente, jogos cujo orçamento é quantificado pelo volume de licenças para utilização de musicas, marcas de carros, entre outros fatores de mesmo gênero.

A obra máxima de Yu Suzuki chegou ao mercado no final de 1999 no Japão e começo de 2000 no resto do mundo. Shenmue impressiona em absolutamente tudo!! O jogo levou mais de 5 anos de produção: o projeto começou no Saturn, console de 32 bits da Sega, e após as chances do sucesso do Dreamcast ela resolveu trocar a plataforma que o jogo seria lançado.

Shenmue

Antes mesmo de grandes jogos em mundo aberto com Red Dead Redemption, Grand Theft Auto ou Assassin’s Creed, Shenmue lançou o gênero. Batizado pela SEGA de FREE (Full Reactive Eyes Entertainment), Shenmue inaugurou muitas novidades no mundo dos games, que hoje são utilizadas constantemente. O jogo tinha uma interatividade e liberdade incomparáveis até então, bem como um sistema inovador que simulava as condições do clima em tempo real, NPCs com falas diferentes dependendo do dia. Foi o primeiro jogo com Quick Time Events e vários outros detalhes, como máquinas que vendem brindes, Fliperamas e lojas de conveniência que faziam da aventura de Ryo uma verdadeira vida virtual.

De fato foi um início primoroso, que ainda foi seguido por uma série de sucessos. A SEGA se preparou bem para o mercado e ofereceu um console completo para os jogadores. O Dreamcast tinha tudo para ser um sucesso sem precendentes.

Mas com tantas qualidades e jogos diferenciados, o que deu de errado?

Apontar um fator é difícil, mas as dificuldades financeiras que a SEGA sempre passou atrapalharam, e muito, o console. A empresa investiu pesado em seu lançamento e fez de tudo para os estúdios internos criarem uma gama grande de exclusivos de diversos gêneros. Fazendo isso, a Sega acreditou que o apoio das third party, produtoras de jogos sem exclusividade,  estaria garantido. A desconfiança acercava o console, pelo passado da Sega com o ridículo e mal programado Saturn; sendo assim, as grandes empresas de jogos não arriscaram apoiar o console branco da empresa, e mantiveram suas franquias no futuro console da Sony, o Playstation 2.

Alem disso o console atravessou uma geração: o lançamento foi apressado e sua tecnologia era excepcional se comparada a encontrada nos consoles da quinta geração, mas, consideravelmente defasada em face do poderio tecnológico de consoles como o PlayStation 2 que seria lançado a apenas um ano e alguns meses após o Dreamcast, um console que estava na metade do caminho, que fingia ser um console 128 bits, enquanto PlayStation 2, Nintendo GameCube, e o estreante Microsoft Xbox tinham potência de sobra.

Alguns dizem que o console estava fadado à morte prematura: o mercado não tinha mais espaço para a SEGA como produtora de consoles. E diziam que até mesmo a Nintendo estava nesse mesmo barco fadado a naufragar.

Mas, ainda assim o Dreamcast reina em muitas casas, sobretudo brasileiras. O console conseguiu alcançar status de cult, possuindo legiões de fãs, ainda que ele tenha resultado em um fracasso para a Sega na produção de consoles caseiros. Apesar de suas quase 10 milhões de unidades, número muito baixo, se comparado ao montante alcançado pelos concorrentes, o videogame é ovacionado por todos. O Dreamcast conquistou um espaço importante no mercado e lançou diversos títulos que ajudaram a amadurecer mais ainda o mercado de games.  E não é raro pensar que ele deu a oportunidade à SEGA de encerrar sua participação no mercado de consoles com chave de ouro.

Vida longa ao Dreamcast, um console maravilhoso que teve a vida encurtada.

[consciência gamer] monster hunter – a eterna batalha homem versus natureza

A relação entre homem e meio ambiente é pré-histórica e histórica, antiga e atual. Com certeza é um dos temas mais velhos da humanidade, e, retratado pela arte já nos primórdios da existência do homo sapiens, no neolítico, através de pinturas rupestres. Desde sempre, o personagem cativo dessas manifestações artísticas é a lendária figura do Caçador, o herói que se arrisca, armado com suas lanças, flechas e facas, em busca do alimento, matador de feras a proteger seus companheiros, sua morada.

Caçadores representados em pinturas rupestres

A relação que se estabelece entre o homem e o meio ambiente, por sua vez, é contraditória ao mesmo tempo em que necessária para existência, sobretudo, dos humanos. A natureza, a priori, elimina o homem, que resiste do único modo possível: anulando essas forças naturais hostis à sua presença. Ao homem é necessário suprir as necessidades criadas pela própria manifestação natural de seu corpo, retirando da natureza seu sustento e causando danos a ela, que reciprocamente também causa danos à humanidade, em uma relação conflituosa de anulação e coexistência, em que a natureza sempre sai vencedora, visto que o homem dela precisa, sem, contudo, que ela dependa do homem.

Mais um caçador armado com lanças

Em razão disso, as primeiras manifestações artísticas produzidas pelo ser humano se deram de modo a retratar justamente a relação conflituosa acima descrita, através de uma visão subjetiva onde pendiam na disputa de um lado os grandes caçadores, e de outro, os entes naturais personificados em animais, que com o passar do tempo ganharam a roupagem de seres míticos, cujos únicos capazes de superar ou ao menos enfrentar, eram os primeiros heróis da humanidade: Caçadores.

Representação da constelação de Orion

Passado o neolítico, o caçador continuou a ser constantemente homenageado, pois ele é o símbolo da luta pela sobrevivência, da superação das forças naturais pela técnica e inteligência inerentes ao ser humano. Não por acaso, uma das mais imponentes e famosas constelações vista da Terra é Orion, O Caçador, matando uma fera, ou segurando seu arco e flecha. Nomear essa importante constelação com o nome de um famoso caçador talvez seja das maiores homenagens feitas pelos povos da antiguidade ocidental.

Posteriormente, durante a idade média, surge outra homenagem à imagem do caçador, dessa fez figurando São Jorge, o cavaleiro que matou um dragão nas terras da Líbia. Conforme a lenda, o dragão, símbolo das forças naturais, ameaçava a cidade de Sylén, o que urgia pelo aparecimento de um herói que fizesse cessar o perigo, um caçador que montado em seu cavalo enterra a lança na garganta do dragão, conquistando mais um triunfo humano sobre as forças naturais.

São Jorge matando o dragão na pintura de Hans von Aachen

No mundo oriental, sobretudo no Japão, também a imagem heroica do caçador ganha destaque, principalmente em razão do fato de que no país as condições naturais sempre foram mais severas. Terremotos, maremotos, antes atribuídos a monstros marinhos, assolaram e ainda hoje causam prejuízos incomensuráveis aos japoneses (vide o terremoto ocorrido em 2011, que devastou a cidade de Sendai), o que os leva a desenvolver uma postura um tanto quanto mais cética em relação à natureza, justamente por esta não ser tão generosa com o povo do arquipélago.

Pintura japonesa retratando um monstro marinho causador de tsunamis

Raiko, grande herói japonês, enfrentando Tsuchi-gumo, uma monstruosa aranha, zoomorfização mítica das forças naturais

Por isso, não é de se estranhar que Monster Hunter tenha surgido no Japão, pois o game é a expressão artística que homenageia o caçador atualmente. Como já se disse, o Japão sofre com as forças da natureza e o povo japonês vive em constante disputa com as forças da natureza, em uma disputa de palmo a palmo para decidir de quem são as ilhas. Assim, do mesmo modo, o game coloca o jogador na pele de caçadores que devem enfrentar monstros titânicos, que causam terremotos, maremotos, ameaçando a vida nas vilas.

Tela de loading em Monster Hunter Freedom 2

Cesto típico do artesanato apache

É notória a inspiração rupestre e neolítica nas telas do game, e muito do que se vê vem diretamente da arte mais primitiva com toques do estilo ameríndio, principalmente asteca e apache, apresentando formas que lembram as pinturas nas cavernas, menires e outras construções em pedra como o Stonehenge e os Moais – cabeças da Ilha de Páscoa – além dos cestos e entalhes ameríndios, mas de modo um pouco mais complexo e modernizado. Ainda assim, as semelhanças são muitas, e todo o jogo apresenta um ambiente selvagem e vasto, que contribui para fomentar o sentimento de o mundo natural é perigoso, hostil, e deve ser temido tanto quanto respeitado, sentimento bem próximo do que muito provavelmente nossos ancestrais mais distantes experimentaram em suas vidas há muito passadas.

Relativamente ao design do game propriamente dito, também as armas e armaduras, todas são feitas a partir de materiais retirados da natureza, e justamente por serem feitas com as peles, escamas e ossos dos animais selvagens mortos, com o resultado se apresentando quase sempre de maneira bem rústica acabam por ser também referência direta às épocas antigas, quando a técnica não era tão apurada e o homem iniciava sua caminhada rumo ao desenvolvimento da civilização, e já enfrentava a natureza tentando dominá-la.

Armaduras feitas a partir dos materiais extraídos de um Lagiacrus ao lado de uma armadura feita de pele de crocodilo datada da Roma Antiga, no Museu Britânico

Esta característica do jogo em dar a oportunidade de colegar materiais produz uma excelente ferramente de crafting (manufatura de equipamento), o que torna o jogo muito mais interessante, ultrapassando as barreiras da mera mecânica de gameplay, dando mais consistência à ideologia por trás do game que reproduz exatamente o que se buscava na era da pedra polida e antiguidade  (mas que dura até hoje) em retirar da natureza os elementos necessários para superar suas intempéries. Ora, daí pode-se inferir inclusive a filosofia de artes marciais como ju jutsu e ju do que visam usar a força do inimigo contra ele mesmo.

Lagiacrus, a ameaça que vem do mar em Monster Hunter Tri

Assim, Monster Hunter é uma ode à lenda do caçador, espírito este que na verdade está dentro de cada um dos seres humanos, sendo sempre presente o desejo de superação, que fez com que o homem saísse da situação de presa, para torna-lo o predador. Tirando-o das cavernas para leva-lo aos arranha-céus, enfrentando a natureza de igual para igual, até alcançar a possibilidade de ser mais poderoso que a própria Gaia em certas situações… O que trouxe ao caçador o viés do desequilíbrio ecológico, nada mais que um recado da mãe natureza, amiga e inimiga, refrescando a memória da humanidade no sentido de deixar claro que os homens precisam dela, mas ela, não precisa dos homens.

Mate o sofá, mas não cometa nenhum crime ambiental hehe

Obrigado por lerem! 😀

[Consciência Gamer] Red Dead Redemption: O velho oeste digital

Atenção: o texto abaixo contém spoilers! Leia por sua conta e risco!

Artwork do jogo

Red Dead Redemption é um jogo digital lançado em 2010 para Xbox 360 e Playstation 3 pela Rockstar Games, a mesma criadora da famosa série Grand Theft Auto (o GTA). Em Red Dead Redemption, o jogador encarna John Marston, um ex criminoso do início do século XX no velho oeste norte-americano.

Marston, em certa altura de sua vida abandona sua gangue e decide iniciar uma fazenda com sua mulher, seu filho e um personagem que é chamado de “tio”, porém não se sabe ao certo se ele realmente é seu tio ou se é apenas seu apelido. Isto, porém, nos é revelado muito depois no jogo. A trama em si é apresentada aos poucos, exatamente como a personalidade bruta de John Marston. Logo de início o jogo nos apresenta que o protagonista está procurando os antigos membros de sua gangue, mas não nos é revelado de início o motivo neste ponto. É somente depois que ficamos sabendo que a família de Marston foi seqüestrada pelos próprios homens de lei, que estão chantageando o protagonista: ou ele se redime de sua
vida criminosa, capturando (ou matando) seus antigos parceiros ou nunca mais vê sua família.

Enredo à parte, a ambientação do jogo é certamente uma das mais imersivas já vistas  um um jogo eletrônico: os Estados Unidos do início do século XX nunca esteve tão vivo perante um jogador. Desde a dublagem, que conta com vozes cheias de sotaque sulista norte-americano até às vestimentas da época, enfim, tudo parece que foi feito com esmero para passar ao jogador como era a época. A ficção traz muito da realidade por trás, e ouvimos termos como “Destino Manifesto” durante algumas partes do jogo, ouvimos opiniões a respeito do massacre
indígena no velho oeste, tanto a favor quanto contra.

Nota-se também que John Marston é um homem do final da era de ouro do velho oeste, resistente ao chamado “progresso”. Isto pode ser claramente percebido em uma passagem do jogo onde o protagonista está de carona em um carro de polícia e é perguntado sua opinião acerca do implemento tecnológico. Ele rapidamente responde que achava o carro extremamente lento e que preferia um cavalo a qualquer momento. Nisto segue-se um pequeno discurso dos policiais, dizendo que não há mais espaço para este tipo de pensamento, que a cidade grande está cheia destas máquinas e que o progresso é inevitável.

Além do sul dos Estados Unidos, grande parte do jogo também se passa no México, em plena revolução! É interessantíssimo como é retratada a revolução por trás da missão de Marston: é sugerido a ele ajudar os rebeldes em troca de informações do paradeiro de outro ex companheiro. Conforme as missões vão acontecendo, o plano geral da Revolução Mexicana vai sendo exibido ao jogador.

O tiroteio em Red Dead Redemption também nos remete ao clima cinematográfico western: o jogador pode ligar um efeito chamado “Dead Eye”, que ativa um filtro em “scepia” na tela e toda a movimentação fica em câmera lenta, podendo o jogador marcar onde vai executar seus tiros.

Duelo em Red Dead Redemption

Deve-se destacar também o trabalho musical do jogo, composto de várias músicas instrumentais de autoria de Bill Elm & Woody Jackson, todas as músicas envolvem o jogador cada vez mais no clima western do jogo (pode-se ver como foi realizada a música do jogo neste link http://www.gametrailers.com/video/the-music-red-dead/702265). O destaque musical, porém, fica por conta das quatro músicas que possuem letras durante o jogo, cada uma só toca uma vez durante o jogo, com seu momento, com seu ápice.

Na mecânica em geral, Red Dead Redemption beira a perfeição como jogo, porém é no clima e imersão que o jogo realmente se revela. É quase uma aula de como era a América do Norte no final da era do velho oeste, com os adventos tecnológicos cada vez mais em evidência, enquanto ainda existem homens, como John Marston, que não aceitam tais mudanças.

John Marston