[Consciência Gamer] Jogador Mimado

Se levarmos a palavra videogame ao pé da letra e a dividirmos em seus dois componentes, temos vídeo e jogo. Vamos deixar nesse artigo um pouquinho do design de jogos de lado e falar sobre o componente de vídeo, ou seja, os visuais.

Estamos em uma época de intensa “guerra de consoles”. É só olhar pela internet: grupos de discussão se dividem em cinco: aqueles que preferem o Playstation, aqueles que preferem o Xbox, aqueles que preferem o Wii U, aqueles que preferem o PC e aqueles que não têm preferência fervorosa, e jogam em qualquer lugar.

Guerra de consoles não é algo novo. Ela vem desde lá o final dos anos 80, com a disputa entre Sega e Nintendo, basicamente. Quem não se lembra, pode procurar aí, que até as próprias empresas duelavam em publicidade. A Sega respondia a líder Nintendo com termos como Blast Processing e tinha um slogan de “Sega does what Nintendon’t” (“Sega faz o que a Nintendo não faz”). Ali já tínhamos os istas se formando. Só que havia um motivo um pouco diferente para essa guerra: os consoles eram muito diferentes. Nem falo de poderio, porque se equiparavam, com um se sobressaindo de um lado, e o outro de outro. Falo mais dos jogos mesmo, até mesmo os multiplataformas eram diferentes. Eram dois consoles muito distintos! Pegue as versões de Aladdin para ambos os consoles e verá, e esse é só um dos casos.

Hoje temos praticamente a mesma guerra, mas que é lutada com armas diferentes: primariamente, fala-se de exclusivos, tanto em quantidade quanto em qualidade. Se determinado console está perdendo a guerra, logo surge um soldado (conhecido como ista) bradando que este console pode estar perdendo agora, mas tem um futuro promissor, ou lançou um jogo com uma nota maior do que os exclusivos do outro console no Metacritic (site que agrega análises da imprensa e de jogadores comuns). Depois, vem discussão sobre gráficos, ou seja, visuais.

Não é novidade, isso vem desde, pelo menos, a época do Playstation 2, Xbox e Game Cube. A concorrência estreitando cada vez mais, a entrada de uma nova empresa no ramo, jogos que eram mais bonitos em um console do que nos outros, tudo isso deixava a coisa mais incendiada.

Jamais me esquecerei da primeira vez que meu primo jogou Nintendo 64 e afirmou que Superstar Soccer 64 tinha gráficos fotorrealistas, idênticos à realidade. E hoje... é... (imagem de http://funnyjunk.com/Graphics+and+shit/funny-pictures/5056689)

Jamais me esquecerei da primeira vez que meu primo jogou Nintendo 64 e afirmou que Superstar Soccer 64 tinha gráficos fotorrealistas, idênticos à realidade. E hoje… é… (imagem de http://funnyjunk.com/Graphics+and+shit/funny-pictures/5056689)

E aí chegamos a hoje, com análises intrincadas da DigitalFoundry (e de outros canais do Youtube e sites) sobre a performance e os visuais. Um dos maiores lançamentos do ano, Fallout 4, veio com gráficos, digamos, modestos para a geração, e com graves problemas de performance em todas as plataformas, até mesmo no poderoso PC, que normalmente roda os jogos da Bethesda com os pés nas costas, enquanto os consoles sempre sofreram com uma otimização ruim por parte da empresa.

E aí, para onde olhamos, vemos dois extremos na briga: de um lado, um grupo que insiste que gráficos não importam, e nem mesmo alguns problemas de performance, o que importa é a diversão; do outro, um grupo que insiste que gráficos ruins torna o jogo ruim também, e que alguns problemas de performance são a morte do jogo.

Será que é assim mesmo a coisa? Para qual lado devemos pender?

O avanço da informação pela internet traz mais sabichões para todos os meios. Política, negócios, economia, filmes e até mesmo os videogames. Lembrem-se de que essa área é povoada por pessoas que gostam de se aprofundar no assunto, mas que às vezes acabam ficando muito, mas muito chatas. Eu mesmo me acho um cara chato com videogames. Seja pela idade, ou por escrever artigos e análises, acabei virando um cara que se diverte mais jogando uma segunda vez do que a primeira, onde minha cabeça fica analisando cada canto da coisa que está acontecendo. Vira burocracia, e justamente aí que temos que ficar atentos.

Lembram-se de que citei a DigitalFoundry? Pois é, esses vídeos são usados por todos os lados dessa guerra de console para afirmarem alguma coisa. “Veja só, o Fallout 4 chega a 0 FPS em determinados pontos do jogo, injogável!”, ao passo em que a defesa vem a galope “Mas no PS4 fica a 23 FPS nos tiroteios, veja no vídeo, prefiro o jogo dar engasgos em determinada parte do que rodando feito uma apresentação de slides na hora de dar tiro!”. Pior ainda quando chega um pessoal falando “mas você viu ali as sombras não renderizaram”, “o HBAO+ está ausente em determinada cena”, “as nuvens parecem de algodão”… meu Deus, por que estamos assim tão chatos e críticos? Será que é impossível nos divertirmos? O 0 fps acontece ocasionalmente, em momentos em que o jogo está renderizando, os 23 fps não acontecem em todo tiroteio… mas esses vídeos querem justamente isso: que você discuta, à exaustão, os aspectos técnicos, que espalhe ele para seus amigos, para que ganhe mais e mais visualizações. Claro que essas coisas merecem críticas para a desenvolvedora produzir patches e, se possível, não lançar um futuro jogo com tais problemas, mas estou vendo algumas pessoas reduzirem o jogo a basicamente isso em suas discussões, desde que tal vídeo da DigitalFoundry foi lançado. E não é algo exclusivo de Fallout 4, ocorre com basicamente qualquer jogo.

Veja bem, eu acho o trabalho da DigitalFoundry muito, mas muito importante e sério, e também acho o agregador Metacritic excelente para nos dar uma boa base das notas e vereditos das análises . Só que eles são usados de uma maneira muito boba pelos jogadores. Mas aí, para coroar a discussão, vai ter um que vai chegar e dizer “mas que burrice, jogavamos com gráficos pixelados no NES e vocês reclamando de gráfico?”. E esse é o outro extremo que queria mostrar: isso de achar que reclamar de gráficos é uma bobagem completa, só porque há 30 anos jogávamos em 8 bits, e hoje os PCs já chegam a resoluções 4K.

O videogame, como qualquer outra tecnologia, evolui. Se não tivéssemos evolução gráfica, provavelmente não conseguiríamos várias inovações para o gameplay. O advento do 3D, por exemplo, é uma evolução gráfica, e mudou nossa maneira de jogar completamente. Com maiores resoluções e poder de hardware nos consoles e PCs, podemos enxergar mais longe nos jogos, subir alturas inimagináveis e continuar enxergando o chão… portanto, o outro extremo é ainda mais tolo: não é porque há 30 anos jogávamos NES que hoje é proibido criticar os visuais de um jogo da oitava geração de consoles.

É, tá bem feio... só que não. (Screenshot de Fallout 4)

É, tá bem feio… só que não. (Screenshot de Fallout 4)

Essa era de extremos está acirrada e estamos cada vez mais enjoados e mimados por esses sites que sensacionalizam ou que, ao menos, botam lenha na fogueira nessa guerra de consoles. Temos cada vez mais acesso à informação, e ela nos consome de uma maneira que regurgitamos de volta tudo o que lemos por puro despeito. Temos pessoas que comemoram quando um jogo multiplataforma não roda bem em um console fora de sua preferência. Será que estamos doentes? Por que iríamos querer que um jogo rode mal no console que nossos amigos e parentes têm? Que ideia! E nem estou falando de pessoas que fazem isso na brincadeira, tem gente que leva isso tão a sério que é lamentável.

Estamos mimados, verdade seja dita. Pelos sites, por desenvolvedores, pelos nossos consoles. No fim das contas, é claro que os gráficos importam, porque são parte da evolução natural da tecnologia, mas são eles tão importantes ao ponto de vermos indivíduos desistindo de jogar determinado jogo porque ele aparentemente não está nos altos padrões estabelecidos pela pessoa? No fim, a diversão e o gameplay são o que mais importam? Sim, com toda certeza, mas um pouco de senso crítico é necessário para ver que os gráficos importam, mas devemos ser um bom tanto menos críticos para conseguirmos ver que o jogo não é formado somente pelos seus visuais, também.

Discutir performance, gráficos… tudo isso é super válido, mas quando nos tornamos um chatos, sem olhar para o jogo que está sendo traduzido por essas imagens… fica difícil sair alguma conversa realmente construtiva.

Sejamos menos mimados. Eu sou um cara chato com videogames, mas tento, a todo custo, não ser, e curtir de boa tudo o que me surge. Deixe de lado essas avaliações técnicas que, no final das contas, 90% dos jogadores não entendem direito e que, sem as barrinhas e o computador que analisa cada imagem renderizada, de nada servem. Afinal, enquanto você reclama e ri, outro, que jogou e gostou, está jogando, se divertindo, zerando, pegando todos os trofeus e conquistas, jogando online… quem será que é o mais esperto daí?

"Lixo, gráficos de 64". Perdeu um jogão quem falou isso. (Screenshot de Dishonored)

“Lixo, gráficos de 64”. Perdeu um jogão quem falou isso. (Screenshot de Dishonored)

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8 pensamentos sobre “[Consciência Gamer] Jogador Mimado

  1. As vezes chega As vezes dá vontade de vontade de ser criança novamente, onde eu jogava e não ligava pra nada e sempre me divertia jogando qualquer jogo aparecia na minha frente, tento também não ser tão chato mas realmente esses sites de analises e performance acabam influenciando grande parte dos jogadores.
    Em relação a guerra de consoles, a parada está ficando bem mais do que chata dependendo de em qual local você comente que gosta de um jogo a galera quer te matar, e eu achando que só política, futebol e religião que dava guerra, hauhauhauhau, “You know nothing John Snow”.

  2. O gráfico faz parte dos jogos, é um elemento importante, eu nunca esqueço o quanto foi incrível ver um Mega Drive “rodando” pela primeira vez! Era tudo tão superior ao NES e Master que fiquei sem entender como aquele console poderia ser tão bom! Mas depois do primeiro impacto, outros fatores como a física do jogo som etc, é que vão determinar se o jogo é bom ou não. E olha, falando apenas do ponto de vista técnico da coisa, porque se for cair no quesito estilo visual ou gênero, ai a discussão não tem fim. Cada um com suas paixões.
    Ótimo texto Neto.

  3. Excelente artigo! As pessoas precisam analisar e apontar sim os defeitos, mas não é necessário denegrir um game sem nem ao menos tê-lo jogado como muito é visto por aí afora. O que todos deveriam fazer é jogar e se divertir com o gameplay, que, mesmo com com certas falhas, diverte =]

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