[Consciência Gamer] Um herói forjado no Bushido

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O Bushido é o código de ética do Samurai, o caminho seguido pelos integrantes da casta de guerreiros que dominou o Japão durante o feudalismo nipônico. Na referida obra estão dispostos os princípios e normas de conduta que deveriam ser seguidos para que o guerreiro alcançasse a perfeição no exercício de suas funções, não só em campo de batalha, mas na vida cotidiana comum a todos os seres humanos.

Orientou o Bushido o comportamento do samurai, desde a educação e aprendizagem, até o regramento no campo financeiro e orçamentário, compreendendo também a etiqueta nas relações sociais e familiares, e até no íntimo de seu lar, com esposa e filhos. O samurai deveria ter sua educação pautada na aprendizagem de técnicas de esgrima, falange, arco e flecha, equitação, jujutsu e táticas e manobras militares, compreendendo estas as competências bélicas. Do mesmo modo, o guerreiro deveria ter considerável conhecimento das artes, devendo compreender as técnicas de caligrafia e os preceitos filosóficos do taoísmo, budismo, e zen-budismo.

No entanto, todas estas especificidades do Bushido eram baseadas, ou resultavam de três princípios básicos que se consubstanciavam nas três qualidades essenciais ao guerreiro, que deveria agir com LEALDADE, RETIDÃO e CORAGEM. O samurai deveria ser leal aos seus pais, e ao seu Senhor, pois a sua honra pessoal se confundia com a honra de seu superior. Também deveria seguir as leis de seu feudo e agir dentro dos limites morais que exigiam dele, acima de tudo, a proteção dos mais fracos, jamais sendo permitido ao samurai usar sua força contra aqueles incapazes de se defender. Finalmente, o pertencente à casta dos guerreiros deveria ser corajoso, não só enfrentando a morte com serenidade sem jamais amedrontar-se diante dela (como forma de garantir imaculadas a retidão e a lealdade), mas também vivendo cada dia de maneira disciplinada, não se deixando controlar pela preguiça ou vícios.

O guerreiro perfeito possuiria essas três qualidades em grau máximo de desenvolvimento, o que sempre foi um ideal inalcançável. O jovem samurai quase sempre era, no mínimo, indisciplinado, e considerado até mesmo arrogante em alguns casos. No entanto, a experiência e vivência são capazes de moldar um homem esforçado a se tornar um guerreiro capaz de beirar a perfeição. E é aí que começamos a misturar games com tudo isso que foi falado.

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Dessa vez, Link será o destaque. A exemplo de vários outros protagonistas de animes e games japoneses, o personagem principal de The Legend of Zelda também foi construído dentro deste ideário apresentado pelo Bushido, o Caminho do Guerreiro. Assim como previsto na obra ora comentada, Link em quase todos os games de The Legend of Zelda é apresentado como um garoto – as vezes dorminhoco – fraco no início, indisciplinado e preguiçoso, que com o passar do tempo acaba sendo forjado a tornar-se o guerreiro capaz de salvar Hyrule da perdição.

Para tanto, aquele jovem outrora fraco e incapaz de proteger seus amigos se torna um habilidoso espadachim, passa a dominar a arte do arco e flecha, e também aprende a cavalgar sua gloriosa e carismática égua, Epona. Todo este grande valor que Link possui em si (e Daidoji Yuzan adverte: “Você nunca sabe onde bate um coração de valor e se você lhes der uma oportunidade, encontrará guerreiros corajosos em lugares surpreendentes”. Clássicos da Estratégia Oriental, 2011, p. 86), advém de sua CORAGEM, e em razão dela, o protagonista de The Legend of Zelda acaba se vendo compelido realizar grandes feitos em nome da LEALDADE e da RETIDÃO. O dever de proteção à sua senhora, Zelda, através do qual se denota LEALDADE não só pela princesa mas por todo o reino. E o dever de RETIDÃO, que exige de Link a prestação de proteção aos mais fracos.

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Link possui a marca da coragem.

Como já se falou, a grande maioria dos protagonistas de games e animes possuem esta característica, e com Link, de The Legend of Zelda, não é diferente. O herói do mundo de Hyrule se torna um guerreiro formidável capaz de derrotar o vilão Ganondorf, apesar da grande força do inimigo que age sempre abusando de seu poder e utilizando meios ardilosos e traiçoeiros. Resta, assim, outra máxima de Daidoji Yuzan que diz: “Um verdadeiro guerreiro nunca tira vantagem de pessoas mais fracas ou age como um valentão. Quem faz tais coisas não é um verdadeiro guerreiro, mas sim um absoluto covarde” (Clássicos da Estratégia Oriental, 2011, p. 81). Essas são as mensagens de The Legend of Zelda a quem joga, ótimos conselhos não só para jovens, mas para qualquer um.

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6 pensamentos sobre “[Consciência Gamer] Um herói forjado no Bushido

  1. Só corrigindo um ponto. A arte de combate corpo a corpo que os samurais praticavam chamava-se jiu-jutsu e não jiu-jitsu. Jiu-jitsu é uma gambiarra brasileira de uma parte pequena do jiu-jutsu original.

  2. Obrigado pela correção amigo. Vou reescrever seguindo a pronúncia original do japonês conforme o sistema fonético de Hepburn, que no caso é jujutsu . Mas, o texto faz referência à técnica original japonesa. Muito bom saber que temos leitores prestam atenção nos detalhes.

    Se puder dar mais alguma opinião (ou várias delas) sobre o texto, por favor, tenho certeza que você também conhece bem o Bushido, além de jujutsu (arte marcial que infelizmente eu não conheço).

  3. Texto muito interessante. Parando para pensar, existem milhares de jogos que partem dos princípios do Bushido, mas são poucos que realmente são jogos sobre o código. Talvez Way of the Samurai e os Yakuzas da era feudal?

  4. Tomio, obrigado por comentar. Então amigo, são muitos games e animes MESMO, todos praticamente, é algo como um padrão, aparentemente pra educar mesmo os japinhas esses princípios desde muito cedo.

    Esses dois games que você citou realmente tratam do assunto de maneira direta. Por ser um livro quase filosófico, análogo ao Ética a Nicômaco no objetivo de ensinar a virtude, até que são muitos jogos sobre o Bushido. Mas, além desses dois, eu não me recordo de mais nenhum com tanta certeza. Talvez Genji, Soul of Samurai (um adventure de PSX que eu gosto muito), e os que tratam do período retratando a história oficial, como Samurai Warriors e Sengoku Basara.

  5. Samurai Warriors Sengoku Basara eu acho que vai mais pro lado literário da história japonesa, apesar de mostrar bastante o lado da ética do samurai.

    Sabe, eu gosto muito quando os jogos tentam ensinar algo, não necessariamente o bushido, mas qualquer coisa que possa enriquecer o espírito do ser humano. Muita gente encara isso como elementos clichês e dispensáveis, ponto de vista que eu sempre critico, pois é evidente que muitas dessas “caretices” dos jogos são virtudes esquecidas pelas pessoas hoje em dia. Enfim, só um desabafo random, nem liga pra esse parágrafo ahuahueahuaeuheua.

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