[Consciência Gamer] Soltem Ezio Auditore da Firenze, ele é inocente!

Ele é inocente!

Ele é inocente!

Ah, mais um episódio de violência no Brasil. Banalizada como ela só, na maioria das vezes nem nos importamos. Ouvimos coisas como “matou a mãe”, “matou o próprio filho”, “crime premeditado”, “crime passional” e nem damos bola. É o normal no Brasil (e no mundo, por que não?).

Anormal seria ligarmos a televisão e encontrarmos somente notícias boas, mostrando como o ser humano é bonzinho. Mas não, dia após dia somos massacrados com notícias horrorosas, na maioria das vezes terminando em morte. Na Rede Bandeirantes toda quinta-feira, inclusive, passa um programa bastante extenso chamado Polícia 24 Horas, que mostra toda sorte de crimes, inclusive cobrindo casos de homicídio, mostrando o cadáver e tudo mais.

Confesso que às vezes assisto a estes e outros programas que se vangloriam da violência alheia para dar audiência. Não adianta, a violência é atraente, desde que vista à distância, com os olhos grudados na TV, pois a tragédia nos emociona (como já diria a música Vicarious, da banda Tool).

Ontem veio à tona um crime horrível por si só: uma família inteira morta. A mãe, o pai, a vó, a tia avó e o filho. Todos mortos a tiros. E a cereja do bolo da mídia sensacionalista é o principal suspeito da tragédia: o garoto de 13 anos, que supostamente cometeu suicídio, segundo as suposições atuais.

Então obviamente todos os programas de TV passaram a pesquisar arduamente sobre o garoto. Quem era? Com quem andava? Como era? Era um garoto doce? O que ele jogava?

Epa! Espera aí, o que ele jogava? Como isso pode ser relevante? Pois é, aí vai o caso: o garoto usava em seu perfil do Facebook uma foto de Ezio Auditore da Firenze, um dos protagonistas da série Assassin’s Creed. E então recomeçou a cruzada da mídia jornalística brasileira contra os videogames.

Essa guerra é antiga. Desde criança que ouço a TV falando mal de videogames. Antigamente nem de crimes precisava, mas hoje isso parece não estar mais colando, portanto os perigos do videogame surge sempre que há um crime e conseguem, de forma mirabolante, ligar o perfil do assassino a algum jogo.

Normalmente o jogo em questão ou é GTA (que parece só existir um para a mídia, pois nunca citam se é o Vice City, ou o San Andreas, ou o mais recente IV com suas expansões, ou, enfim, qualquer um deles) ou é Counter Strike (também confundido na TV muitas vezes com Call of Duty ou qualquer outro jogo de tiro que eles encontrarem no Youtube para exibir imagens pavorosas da violência proporcionada pelo jogo [!]). Outros jogos já foram vítimas da televisão também, como foi o caso de Duke Nukem, em 1999, que chegou até mesmo a ser proibido no Brasil depois de um rapaz invadir um cinema e atirar nos presentes.

Duke Nukem

Duke Nukem

Dessa vez o calo é Assassin’s Creed (mais uma vez tanto faz qual, mas o que foi exibido na TV foi a capa de Brotherhood). A trilogia de Ezio (falarei somente dos jogos com este protagonista) reconstrói uma Terra dos séculos XV e XVI, especialmente a Itália. Essa série, diga-se de passagem, é um exemplo excelente de um jogo que acaba por ensinar o jogador vários aspectos de seu universo. É impossível jogar Assassin’s Creed e não ter, no mínimo, sua curiosidade despertada acerca da época, dos eventos narrados e dos personagens.

Mas do caráter pedagógico do jogo a mídia não vai falar. Prefere, no entanto, inventar histórias. Eu até gostaria de jogar o Assassin’s Creed (ou Crèdi, como diria Marcelo Rezende, apresentador de um jornal sensacionalista da TV Record), mas deve ser alguma edição muito especial e que só ele possui. Ele diz ser um jogo onde o “matador entra na cidade e sai matando todo mundo”. Claramente esse não é o objetivo do jogo.

O jogo conta uma história de vingança no primeiro da trilogia, Assassin’s Creed II, com Ezio buscando vingar sua família, morta pelos Templários. O jogo, porém, em hipótese alguma sugere ao jogador o benefício de se matar civis inocentes. Pelo contrário, Ezio é praticamente o modelo de justiça com as próprias mãos, que não podemos exercer na realidade, visto que a cada civil que o jogador mata, o jogo alerta claramente: EZIO NÃO MATAVA INOCENTES.

Portanto, por que a mídia está tentando culpar um personagem de videogames nesse crime? Hoje na televisão ouvi várias vezes que os videogames violentos influenciam negativamente as crianças. Bom, então vamos partir desse pressuposto. Eu concordo sim que jogos violentos podem influenciar não só uma criança, como qualquer um.

Veja bem, somos seres humanos e tudo ao nosso redor nos incentiva, inspira, influencia. Não tem jeito, somos como uma esponja e é muito difícil algo entrar em nosso ouvido (ou olho) e sair pelo outro sem se absorver nada. Mas eu sempre joguei videogame e nunca matei ninguém.

Aliás, quando criança brincava muito de Mega Man, outro jogo violento (bom, acho que para a mídia até Viva Piñata deve ser violento), de verdade mesmo. Fingia que eu era algum robô com alguma habilidade e brincava assim com meus amigos. Influência total dos videogames, visto que todos nós jogávamos muito Mega Man X, na época. Porém, aquilo tudo era brincadeira e quando parávamos de brincar, sabíamos que estávamos no mundo real.

O problema é quando o sujeito já tem problemas mentais, de personalidade, enfim, o que seja, e então se sujeita a jogar jogos violentos. Esse ser não deveria, para começo de conversa, se sujeitar a qualquer tipo de ficção antes de uma avaliação ou algo do tipo. E aí entra um pouco do desmazelo dos pais, que devem cuidar de suas crianças e perceber principalmente quem ela é, e não o que ela joga ou assiste. Sabendo-se quem ela é, pode-se ver o que fará bem e o que fará mal para seu desenvolvimento.

Jogar videogame e navegar na internet: muito mais divertido do que ver TV.

Jogar videogame e navegar na internet: muito mais divertido do que ver TV.

O crime dessa semana foi com uma família de policiais militares. Os dois possuíam armas de fogo e o revólver encontrado com o garoto era de um de seus pais, policial. Mas isso está sendo muito menos comentando do que os “males dos videogames”. O verdadeiro vilão aqui não está sendo a violência propriamente dita, que o garoto vivia todos os dias (afinal, quais são os possíveis assuntos trazidos à mesa, quando se trabalha com a violência?).

E outra, o garoto usava uma imagem de um personagem em seu Facebook. E se fosse uma imagem do Galinho Chicken Little? Estariam condenando as animações? A mídia nem mesmo sabe se o garoto jogava Assassin’s Creed. Pode ser que ele gostou da imagem que viu por aí e colocou.

Outras informações foram surgindo e agora parece pouco provável, através da análise de balística, que o garoto de 13 anos tenha matado toda a família. E aí, toda essa cruzada da mídia contra os videogames vai por água abaixo?

Não, pois o dano já está feito. As pessoas de mais idade, que não compreendem as novas tecnologias, como videogame e internet, acabam absorvendo essas informações negativas sobre os videogames e com certeza vão, no mínimo, passar um sermão naquele filho que joga. E isso sem falar naqueles que vão proibir terminantemente o uso de qualquer dispositivo eletrônico em prol de rodar algum jogo, sem falar naqueles que vão queimar os consoles dos filhos, comprados em doze no cartão de crédito, só porque especialistas da televisão disseram algo. Mas ninguém se pergunta se o Marcelo Rezende alguma vez pegou um controle de videogame nas mãos.

A televisão é uma mídia extremamente sensacionalista e, acima de tudo, carniceira. O assunto está dando o que falar e a família está basicamente esquecida. Parece mais que está tendo um show de rock internacional, cheio de informações e badalações, do que um trágico crime. E quanto mais esse circo pega fogo, melhor para eles.

Confira abaixo Marcelo Rezende falando sobre o jogo:

Mas eu penso que o buraco é mais embaixo. Essa guerra empregada pela televisão contra os videogames é justamente porque quem está jogando videogame não está vendo televisão. Sem ver televisão, não dá IBOPE. Sem dar IBOPE, menos empresas querem investir em comerciais em televisão aberta. Não se engane e pense bem: você, jovem, que usa a internet e joga videogames, assiste tanta televisão assim? Passa tardes e tardes vendo a programação da TV aberta? Se sim, eu acredito que seja a minoria.

Mas os videogames não estão sozinhos. Outro grande alvo da televisão é a internet. Vários programas de TV vivem fazendo reportagens do quão perigosa é a internet. As redes sociais, então, são os verdadeiros demônios, antros de criminosos e pedófilos.

A TV é muito boa em julgar e dar conclusões precipitadas, porém é péssima em informar com imparcialidade. Acredito sim que talvez seja importante para a investigação ver o que o garoto jogava, caso ele for mesmo o assassino. Mas não vejo como Ezio é o culpado. Como é possível uma criação ficcional ser a culpada por algum crime, sendo que ela é de faz de conta? E por que os pais deixaram um garoto de 13 anos jogar um jogo para maiores de 18 (tudo bem, ninguém liga muito para isso, mas mesmo assim…)?

Cresci assistindo Pica-Pau, Tom & Jerry e outros desenhos cuja violência era tão forte que teve de ser feita em forma de desenho animado. Personagens que viviam por aí jogando explosivos, dando tiros com espingardas, lançando facas uns aos outros… e eu, contrariando as expectativas da TV, nunca matei ninguém. Que bom para mim, mas suspeito de que essa verdade seja horrível para os mandachuvas da TV brasileira.

Tão perigoso quanto um fio de cabelo.

Tão perigoso quanto um fio de cabelo.

Imagem bônus:

Imagem da página Nintendista, do Facebook.

Imagem da página Nintendista, do Facebook.

Artigo relacionado: O assassino joga game, ou o game faz o assassino?

Anúncios

6 pensamentos sobre “[Consciência Gamer] Soltem Ezio Auditore da Firenze, ele é inocente!

  1. Parabéns pelo artigo, muito interessante. Concordo plenamente com tudo o que foi dito, essa ataque da mídia não tem sentido algum. O problema é se isso causar algo mais…

    • Sentido tem, né? Fazer polêmica e buscar diminuir a imagem cada vez mais crescente dos jogos de videogame, visto que essa atividade tira audiência da TV!

      Obrigado pelo elogio 😀

  2. Excelente matéria. É verdade que ninguém vê a faixa etária dos jogos, mas é pra isso que ela existe. Eu jogo video games desde os 3 anos de idade… desde de que eu me entendo por gente; isso nunca afetou qualquer ação ou decisão minha.

  3. Essa estoria de games violentos serem os responsaveis por todos os males do mundo, eu escuto desde os tempos do river raid no Atari 2600… Engraçado mesmo é a burrice desses jornalistas em condenarem um jogo de videogame por incitar a violencia, sendo que eles mesmos não olham pro proprio rabo sujo e nem notam qual o conteudo dos filmes do Chuck Norris, Bruce Willis, Os mercenários, Rambo, etc, etc, etc, que são rotina nas sessões da tarde das tvs abertas e menos ainda para os desenhos animados infantis da galera do pica-pau &cia que explodem a cabeça dos inimigos a tiros, bombas, balas de canhões e que não ficam devendo nada pro counter strike… Se é pra condenar, então que sejam imparciais e coloquem todos os acusados de violencia gratuita no mesmo banco dos réus e tirem das suas programações toda e qualquer forma de incitação a crimes e façam um favor pra humanidade tirando do ar esses jornalistas urubus que ficam se alimentando só da podridão e fazendo circos de horrores das tragédias alheias… Quanto ao garoto que é o provavel autor desse crime que é a bola da vez, além dos outros inumeros autores de massacres nas escolas dos Eua, Noruega e cia, que diferença faria se eles jogavam farmville ou Assassin’s Creed ? Se o AC é o um curso de formação de psicopatas e esquizofrenicos, então tenho que processar a ubisoft por propaganda enganosa porque pra mim e pra outros milhões de jogadores do mundo inteiro simplesmente não funcionou porque ainda não matamos ninguém até agora…

    Abraços, Neto!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s