[Neto’s Review] Call of Juarez: Gunslinger

“It was me or them.”

Gunslinger1

Call of Juarez: Gunslinger é o mais novo título da franquia Call of Juarez, da Ubisoft, que agora conta com quatro jogos. A série, que nasceu nessa geração do Playstation 3 e Xbox 360, teve considerável sucesso com o primeiro título, homônimo, e o segundo, subtitulado Bound in Blood. Já o terceiro título, com o subtítulo The Cartel, não obteve lá muitos grandes feitos com os fãs e a mídia em geral.

Quanto a mim, eu nunca joguei nenhum Call of Juarez. Portanto, estou aqui analisando Call of Juarez: Gunslinger puramente sem conhecer a franquia. Espere um texto sem referências aos jogos anteriores, portanto.

A balada do pistoleiro

O jogo é protagonizado por Silas Greaves, um caçador de recompensas do fim do século XIX. Toda a narrativa do jogo é feita por mais de uma voz, mas essencialmente vivemos as memórias de Silas.

O pistoleiro conta sua história para um grupo de pessoas dentro de um saloon, onde vai contando tudo enquanto acaba ganhando bebidas gratuitamente. Sua história de caçador de recompensas é muitas vezes interpelada e também interpretada pelos outros personagens que estão à sua volta.

Nessa época do Far West norteamericano muitas lendas circulavam e muitos eram os mitos do Oeste. É isso que possibilita a narrativa bastante subjetiva do jogo. E essa narrativa influencia nos acontecimentos enquanto estamos no controle da situação. Por exemplo, um personagem diz que leu em algum lugar, ou ouviu de alguém, que tal situação ocorreu de tal forma, e então jogamos da forma com que ele conta. E então, quando a interpretação de tal personagem termina, Silas toma as rédeas da sua própria história, tão deturpada e distorcida, e diz exatamente como foi.

Essa escolha de narrativa íntima e pessoal, misturada com o saber popular, traz uma nova luz aos videogames, cujas narrativas feitas pela memória dos personagens são raras. O jogo, se passando todo no passado, e sendo esse passado narrado em muitas vozes, traz à tona uma discussão interessante acerca do termo memória. Call of Juarez: Gunslinger vem mostrar que a memória é algo subjetivo e que pode ser facilmente distorcido, e também nos apresenta um panorama de que nem sempre o que está nos atos oficiais escritos é a realidade, como pôde ser visto no parágrafo acima.

Todo o jogo é permeado pela narração em primeira pessoa.

Todo o jogo é permeado pela narração em primeira pessoa.

Essa narrativa, no entanto, só dá muito certo porque Silas é um contador de histórias de primeira. É tão bom que o jogo põe o jogador em dúvida quanto à veracidade dos fatos a todo momento. Essa dinâmica da narrativa, que nos coloca a todo momento em situações sob as mais variadas perspectivas, serve para dar um dinamismo à história bastante diferenciado.

A perfeição, no entanto, não foi atingido. Essa narrativa custa um pouco caro, visto que o jogo por diversas vezes para a ação abruptamente para que Silas diga “é… não foi bem assim” e então somos forçados a outra situação, e nem sempre o jogo nos coloca de volta à ação imediatamente. Essa quebra de clímax pode ser interessante para alguns, por ser surpreendente, mas talvez não seja o ideal e realmente deixe o jogador um tanto frustrado. Isso não ocorre a todo momento e nem em toda missão, mas quando aparece pode apresentar problemas.

Sunset Riders da sétima geração

Quem é das antigas se lembra de Sunset Riders, um jogo lançado para arcade em 1991 e em 1992 portado para Super Nintendo e Mega Drive. O jogo é um sidescroller 2D que se passa no velho oeste e é muito querido até hoje (especialmente por mim, que aluguei-o umas duzentas vezes).

Foi bastante surpreendente ver que Call of Juarez: Gunslinger bebe da fonte de Sunset Riders, especialmente em relação à apresentação de personagens. Sempre que iniciávamos uma nova fase em Sunset Riders tínhamos o cartaz do “chefe” da fase, no melhor estilo “Procura-se vivo ou morto”.

Gunslinger faz parecido, onde grande parte dos capítulos traz o nome do inimigo a ser derrotado no final. Sunset Riders tinha as frases de efeito para esses chefes (Simon Greedwell com suas famosas frases “It’s time to pay” e “Bury me with my Money”, por exemplo), enquanto a aventura de Silas entrega uma apresentação fantástica e que confere poder ao nosso inimigo.

Johnny Ringo em poucas palavras.

Johnny Ringo em poucas palavras.

E, ah, não são inimigos comuns. Aqui veremos verdadeiras lendas do Oeste, como Billy the Kid, Sundance Kid e Jesse James, todos retratados por Silas, que sempre acaba à distância de um duelo com eles.

O jogo inteiro tem um clima muito parecido com Sunet Riders. Parece até mesmo uma homenagem ao jogo, visto que ambos apresentam um tiroteio puro, sem firulas. Claro que Gunslinger traz as marcas de seu tempo, que é uma narrativa mais aprimorada (nem falaremos de questões técnicas, como gráficos, dublagem, som), mas o esqueleto do jogo parece ter sido bastante inspirado na aventura de Cormano, Bob, Billy e Steve.

Bang Bang

Como era de se esperar, Call of Juarez: Gunslinger, é um jogo que se vale essencialmente de seu tiroteio. Com visão em primeira pessoa, Silas está sempre atirando, mostrando por que é uma lenda do Velho Oeste, com seu gatilho rápido e preciso (ok, só será rápido e preciso se você quiser, mas, se você não quiser, bem, provavelmente você não avançará no jogo).

O jogo apresenta uma característica bastante arcade no modo história, onde cada morte vale pontos e esses pontos são convertidos em experiência e, atingido o mínimo para o “level up”, pode-se escolher alguma nova habilidade, como recarregar a arma mais rápido ou poder recarregar enquanto Silas está correndo. Essa característica de RPG anda ficando cada vez mais comum entre jogos de ação e isso só vem a acrescentar uma melhor customização e adaptação ao estilo de jogo de cada um. Em Gunslinger, isso é ainda mais acentuado e aprofundado, por termos três skill trees diversas, cada uma focando em um tipo de jogo (dual wield, tiroteio à distância e tiros próximos), dando maiores vantagens às armas que o jogador mais utilizar, conforme suas escolhas. Nada o impede de mudar de skill tree quando quiser, porém, começada em um, o ideal é sempre seguir no mesmo, afinal isso vai definindo quais são as armas que mais gostamos de usar.

O jogo possui reflex sighs, ou seja, aquela mira onde a arma vem para o centro da tela, acionada por um botão, possibilitando uma mira mais exata. Atirar de outra forma se torna infrutífero, especialmente se for à distância, visto que as balas fogem facilmente do inimigo sendo mirado. Para curtas distâncias, com shotguns, por exemplo, funciona bem sem ativar o recurso, porém, com uma carabina de longo alcance não deve ser uma boa alternativa.

Gameplay

Gameplay

O jogo consiste basicamente em enfrentar grupos de inimigos e prosseguir nas fases. Há pouca variação e a exploração é para encontrar coletáveis que adicionam ao universo do Velho Oeste, oferecendo informações em forma de texto e imagens sobre determinado personagem ou acontecimento. Mesmo com poucos caminhos diferentes a trilhar, deve-se procurar com um pouco de atenção estes coletáveis, chamados de Nuggets of Truth, especialmente para quem quiser completar todos os desafios do jogo e não quiser recorrer a guias.

A IA dos inimigos é básica e não é nada tão explêndido. Mesmo jogando na dificuldade mais alta disponível na primeira jogatina, a adaptação é fácil e há muitos recursos. As fases apresentam vários covers, apesar de serem bastante abertas em muitos momentos, com inimigos até mesmo rodeando Silas, obrigando o jogador a selecionar e procurar bem de onde vêm os tiros, para eliminar as ameaças (de morte).

Os dois maiores recursos do jogo são Concentration e Sense of Death. O primeiro é uma espécie de bullet time, retardando o tempo do jogo e desacelerando os inimigos, além de destaca-los no cenário, possibilitando o jogador a desferir vários tiros de uma só vez em vários personagens, dando a sensação de gatilho mais rápido do Oeste. O segundo é uma habilidade onde Silas consegue desviar do tiro que colocaria fim à sua vida, desde que o jogador desvie para o lado certo. Ambos os recursos exigem um gerenciamento de suas próprias barras, devendo o jogador evitar vacilar, especialmente com o Sense of Death, que vai se recuperando conforme o tempo e, uma vez vazio (ou ainda não cheio), caso o jogador venha a levar vários tiros, a morte é certa.

Outra boa característica do jogo é a possibilidade de se fazer combos, que vão multiplicando a experiência ganha. Atire rápido e precisamente, matando vários inimigos em sequência. Essa é outra característica do jogo que vem a dar ainda mais a sensação de ser o gatilho mais rápido do Oeste.

Concentration

Concentration

Os chamados Quick Time Event também estão presentes em Call of Juarez: Gunslinger. Em determinados momentos, Silas mirará automaticamente em seus alvos, o tempo retardará, e o jogador deve apertar os botões em sequência. Caso erre, no entanto, o jogo continua, com os inimigos ainda vivos e agora com o jogo em velocidade normal. Há quem não goste de QTEs, porém neste caso foi bem adaptado e até mesmo com um bom propósito, buscando mostrar os bons reflexos de Silas. Como isso não acontece com frequência, não deve ser algo a afastar jogadores mais puristas.

Outra coisa muitíssimo bem vinda no jogo são as batalhas contra chefes. Em baixa nesse tipo de jogo, é sempre interessante observar quando um jogo traz essa característica. Call of Juarez: Gunslinger executa bem isso e nos entrega chefes interessantes com bom design de level para enfrenta-los. E muitos deles exigirão muita perícia e agilidade nos dedos e a frustração seguida das palavras “Essa vai ser a última tentativa” vai ocorrer bastante. E no mesmo chefe. A cada 2 minutos.

Duelo à Meia-Noite

Call of Juarez: Gunslinger traz um excelente adendo a essa característica cultural de quando se pensa em Velho Oeste: duelos. O jogo conseguiu aprofundar bastante a mecânica, fazendo com que o jogador se torne um verdadeiro computador multi-tarefa para conseguir passar dos desafios.

Toda a campanha apresenta vários duelos e em cada um vão-se apresentando novas características. Portanto, somente lá pelo último duelo do jogo que será possível utilizar todas as opções para duelar. Observar os movimentos do adversário enquanto movemos o manete esquerdo para que a mão fique próxima da arma, enquanto o manete direito deve ser usado para manter a mira e ir focando cada vez mais o adversário, tudo isso enquanto tenta-se ver e adivinhar quando a arma adversária será sacada… enfim, a profundidade colocada nos duelos foi muito grande e muito bem vinda, e será utilizada especialmente no New Game+ ou no modo de duelos no menu principal do jogo, enquanto os duelos da campanha servem mais como um grande tutorial ao jogador.

Duelo

Duelo

Sons e vozes

A trilha sonora do jogo é muito boa ao que se propõe, proporcionando boas melodias inspiradas no Velho Oeste, combinando bastante com as situações. Não é algo tão atmosférico como é no grandioso Red Dead Redemption, mas não faz feio.

Um destaque musical vai para a música à capela cantada pelo próprio Silas Greaves, dando um clima mais intimista a uma parte do jogo. É muito bom ver quando o som se alia bem à situação de jogo e também de enredo, fazendo os três atributos trabalharem em conjunto.

Quanto à dublagem, espere pelo trivial de jogos de faroeste, como não deveria deixar de ser: um sotaque do sul dos EUA, bem acaipirado, por assim dizer, com palavras duras. É o esperado e desejável para jogos com essa temática, e todas as dublagens são feitas de forma bastante inspirada.

Pintura árida

O trabalho de arte em Call of Juarez: Gunslinger é soberbo. O cell shading utilizado no jogo é muito belo, dando um clima de pintura, o que lhe confere identidade, ao invés de seguir para uma caracterização realista, priorizando uma forma mais cartunizada do real.

Os cenários, para um jogo do gênero, até que apresentam boa diversidade, com localidades variando entre desérticas, minas e até mesmo pântanos, além de também apresentar uma fase que se passa em um trem, mudando um pouco a dinâmica aberta dos cenários.

A arte do jogo é excelente.

A arte do jogo é excelente.

Espere por cores bastante vibrantes em Call of Juarez: Gunslinger.

Tiros pessoais

Call of Juarez: Gunslinger é um jogo muito bom, com um modo história com cara de arcade. Sem muitas firulas, o jogo é bem direto ao ponto, fazendo o jogador não deixar sobrar ninguém vivo e seguir em frente, com alguns toques de exploração. O diferencial do jogo vem com os duelos e com a narrativa baseada nas memórias, que faz com que a afeição por Silas Greaves cresça conforme sua história vai sendo revelada.

Silas Greaves

Silas Greaves

O melhor: o jogo realmente confere a sensação de “gatilho mais rápido do Oeste”.

O pior: a narrativa vem com o revés de cortar clímax.

Nota final: 8,0/10,0 (Gameplay tradicional com narrativa diferenciada)

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2 pensamentos sobre “[Neto’s Review] Call of Juarez: Gunslinger

  1. Estou muito ansiosa pra jogar Gunslinger. Peguei a demo e achei a proposta ótima (pelo pouco tempo então… conseguiu chamar muita a atenção). O jogo já tem um início nada parado e sem enrolação pra começar o tiroteio hehehehe Pretendo jogar em breve.
    Gostei da review, Neto =D

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