[Overthinking] O manifesto anti-escravocrata nos games

revverde1Há algum tempo atrás, surgiu um jogo chamado Super Mario Bros. 3. Nele, você poderia entrar em umas casinhas de entretenimento que te davam itens de volta. Naquela época isso não era muito comum, mas começava a surgir nos jogos uma relação consumerista entre personagem e NPC.

O que é de se espantar, no entanto, é que o Toad em questão trabalhava de graça e ainda por cima concedia itens ao encanador, depois de aplicar um joguinho da memória ou algo semelhante, coisa que exigia pouquíssimo cérebro, justamente para agraciar com um prêmio o jogador. Após pegar o item, a casinha sumia, e podemos ver nisso duas implicações:

1 – O jogador não pode ficar visitando a Toad House infinitamente, o que lhe aplica desafio;

2 – O Toad em questão fecha suas portas para seu merecido descanso.

Pare de alimentar essa prática.

Pare de alimentar essa prática.

O que se pretende nesse artigo é tratar sobre a segunda implicação. Em todo jogo vemos pessoas fazendo as mesmas coisas por basicamente 24 horas (proporcionais ao tempo do jogo, claro) seguidas. Em alguns poucos essa escravidão forçada de pixels e modelos é reduzida, colocando-se ciclos de dia e noite nos jogos. Vamos pegar alguns exemplos clássicos.

Em Chrono Trigger (e vários outros RPGs), encontramos inúmeras lojas e estabelecimentos comerciais onde os mesmos personagens trabalham dia e noite. Tudo bem, você pode dizer que as mesmas pessoas também ficam nos balcões bebendo cerveja sem parar nesses mesmos lugares, mas é muito mais prazeroso beber uma cerveja 24 horas do que trabalhar, sem nem molhar o bico. Isso é lastimável. Imagine você trabalhando em um hotel sem descanso, 24 horas, 365 dias por semana e chega um trio, um portando uma espada, outra uma arma de fogo e o outro é um sapo que anda e fala e ainda por cima usa capa (um tremendo de um cara prepotente, só pode ser, pra ficar usando capa) e que alugam um quarto para dormir.

Essa triste representação nos leva a pensar nas terríveis condições em que os produtores trabalham. Tudo bem que o jogo é antigo, mas já mostra nuances de que eles trabalham demais. Sem quase nada de descanso. Muitas vezes vemos nessas lojinhas portas atrás do balcão, mas dificilmente as vemos por dentro. Imagino eu que lá haja uma pequena cama, onde os NPCs em regime de escravidão podem dormir durante poucos minutos, mas voltam a ter de acordar prontamente ao som da porta da frente se abrindo, e dando de cara com três personagens muito estranhos e intimidadores.

Vemos que no caso, o trio está representando a alta cúpula das desenvolvedoras de jogos, que obrigam os seus empregados (no caso, representados pelos NPCs vendedores e hoteleiros) a trabalharem sem parar. Na hora não percebemos isso, achamos que é somente para conveniência, MAS, a mensagem subliminar está ali, empregada pela não-troca de NPCs chefiando a loja. É bem sutil, mas o apelo dos trabalhadores está ali para as péssimas condições de trabalho. Há de se salientar também que não há nenhum banquinho no balcão, eles nunca se sentam.

Exemplos para isso não faltam. Podemos também citar os jogos de Pokémon, onde os Centros Pokémon, além de ficarem abertos 24 horas, não cobram nada do jogador. E eu nunca o vi pagando um centavo de imposto para manter esse SUS Pokémon funcionando. As pessoas que trabalham lá dentro sempre atendem com um sorriso no rosto e palavras de carinho e cuidado, o que certamente nos mostra um caráter de lavagem cerebral, pois o cérebro não aguentaria tamanha carga de trabalho.

Esta pobre enfermeira teve um colapso nervoso devido à alta carga de trabalho no dia 12 de abril, mas isso não apareceu na Folha de Kanto.

Esta pobre enfermeira teve um colapso nervoso devido à alta carga de trabalho no dia 12 de abril, mas isso não apareceu na Folha de Kanto.

Você pode me dizer: ah, mas não tem como provar que eles ficam 24 horas trabalhando nessas lojas e hotéis e centros pokémon, já que não ficamos nas mesmas áreas sempre, pode ser coincidência de bater a rotina de trabalho de um ou outro empregado.

É aí que você se engana, jovem leitor. Também, por anos, fui levado a pensar nisso. Até que decidi ficar eventualmente 24 horas, sem pregar os olhos, dentro de um centro pokémon. Para que não houvesse nenhum problema, liguei meu Nintendo DS na energia e fiquei observando e tomando nota… mas não havia  o que tomar nota. As pessoas continuavam ali, em uma felicidade mórbida e monótona. Nada acontecia.

Passadas as 24 horas, sai em busca de um advogado pela ilha do jogo e adivinhe: obviamente não encontrei nenhum. Parece que o curso de Direito foi abolido e os trabalhadores de todos esses jogos estão à mercê dos abusos das grandes corporações. O Estado parece abolido, há vilarejos em que não há nenhum órgão do governo disponível, e os trabalhdores ficam sendo chicoteados invisivelmente pelos seus chefes, que são verdadeiros escravocratas. E se existe algum advogado nesses jogos, ele simplesmente está sendo  comprado pelas grandes corporações e seus donos tiranos.

Essa sociedade robótica acaba acertando em cheio todo o resto dos NPCs, que vivem se repetindo. Não é incomum falarmos 300 vezes com a mesma garota e ela dizer sempre que está atrasada para a escola, de maneira extremamente monótona e sem a menor emoção. Não há uma palavra em itálico para demonstrar que ela está desesperada para dizer outra coisa, mas não pode.

Há exemplos de rebeldia, no entanto. Em Castlevania 2: Simon’s Quest, há uma casa onde um personagem te diz simplesmente: “Let’s live here together” (“Vamos viver aqui juntos”). Incrivelmente sutil, a frase parece desconexa de todo o resto do jogo. Ela não te dá dica de nada, não serve para nada e parece até mesmo o texto do personagem que diz “I am error” (“Eu sou erro”) em Zelda II: Adventure of Link (exceto que nesse caso, esse pobre personagem já está com o cérebro tão desarranjado e em mal funcionamento que já assumiu sua falta de capacidade de acertar em qualquer coisa, até mesmo em existir), porém apresenta uma interessante recusa da sociedade egoísta e robótica que existe. Esse personagem simplesmente quer tentar viver em harmonia com o único personagem que anda para lá e para cá com liberdade: você. Certamente um apelo dos empregados das grandes desenvolvedoras, travestido de mensagem sem sentido.

Misteriosamente, a pessoa não apareceu na screenshot. Conspiração?

Segundos antes de tirar a screenshot, um agente secreto surgiu do teto e, com uma corda, amarrou a pessoa pelo pescoço e a puxou para fora. Depois disso, ela nunca mais foi vista.

Outro exemplo de rebeldia é Melchior, de Chrono Trigger. Ele possui uma manufatura e é um ferreiro de cunho familiar. Sua atividade é feita sempre dentro de casa, com bastante conforto e possibilidade de descanso. Isso, porém, custou para ele seu afastamento de todo o resto da civilização, indo morar até mesmo bem longe da Vila dos Monstros do jogo, bem afastado mesmo. Seu comportamento certamente era contrário aos chamados “bons costumes” das pessoas “muito trabalhadoras”, que não sabem que seus direitos humanos (e monstruosos) estão sendo dilacerados na frente de seus próprios olhos, com suas próprias mãos, enquanto um grande açoite invisível acerta suas costas.

Melchior rejeitou o estilo de vida escravista da região e fugiu.

Melchior rejeitou o estilo de vida escravista da região e fugiu.

Outra coisa importante de se notar é que às vezes os abusos são incentivados a serem realizados pelo próprio jogador. Perceba que muitas vezes há baús dentro desses locais comerciais, com fácil acesso. Essas lojas dificilmente possuem segurança, e os balconistas, aterrorizados pelas grandes armas que os personagens carregam, raramente levantam um dedo para interromper o assalto. E, caros amigos, se o tesouro da loja está sendo guardado em baús, não há a possibilidade, nem mesmo remota, de haver uma câmera de segurança, dando um álibi ao pobre trabalhador, que será brutalmente castigado e terá de trabalhar meses a fio sem receber um centavo, tudo para pagar o assalto que o personagem do jogador realizou, inconscientemente, pensando ser algo natural a se fazer, visto ser um jogo.

A sociedade escravocrata no mundo dos jogos tem que acabar. Basta de chefes tiranos, de trabalhos forçados e de todo o resto. VIVA LA REVOLUCIÓN!

Hay que endurecerse, pero sin perder lo cogumelo jamás.

Hay que endurecerse, pero sin perder lo cogumelo jamás.

Anúncios

12 pensamentos sobre “[Overthinking] O manifesto anti-escravocrata nos games

  1. Felizmente, essa realidade está começando a mudar aos poucos. Podemos perceber isso com jogos como Bioshock Infinite, onde muitos NPCs simplesmente descem o cacete se você tocar em suas economias.

  2. Texto genial. Ao mesmo tempo em que dei risadas (principalmente por estar zerando Chrono Trigger e lembrar dos personagens citados), coloquei a mão na consciência e refleti bastante sobre esses abusos virtuais. Na atualidade isso vem diminuído muito, mas ainda é bem recorrente, principalmente em RPGs.
    Que um dia todo esse abuso acabe.

  3. Hhahaha me mijei de riri aqui. Já devo ter causado muita falencia em jogos com a quantidade de coisas que “peguei” em casas e estabelecimentos

  4. Não tem o que fazer não? trabalho escravo em jogos? pelo que vocês não perceberam lá não tinha tecnologia para regular o tempo do jogo (que nunca muda a não ser com algum “feito”),o jogo era feito apenas para entreterimento, o cara que fez o texto ai tem habilidade para escrever, só faltou algum assunto mesmo…
    PS: Chrono_trigger é o melhor jogo que tem 😉

    • Amigo, é um texto humorístico, tentando tirar sarro de coisas absurdas que essas corporações tipo PETA encanam em jogos, tipo o caso das caças às baleias em Assassin’s Creed IV. É só uma brincadeira o texto, cara! Relaxe 😉

  5. Tenho o livro do assassin’s aqui…falta um pouco de animo para abrir ele…um pouco mais para ter interesse…e mais um pouquinho para ler, algum dia eu consigo.
    Escreva sobre mensagens sublinhares, tem muita gente que olha e pelo seu jeito de escrever acho que vai ficar bom… muita gente “vaga” (atoa) tipo eu, fica olhando isso quando não tem nada para fazer.

    • Obrigado pela indicação, vejo se em breve faço um artigo sobre, englobando mais coisas, fazendo alguma análise sobre isso nos games.

      Tenho alguns artigos na frente, mas a sugestão está anotada!

      Obrigado!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s