[Consciência Gamer] Journey e a jornada dos jogos

A ideia original era  fazer uma análise comum para Journey, um famoso (e controverso) jogo exclusivo para a PSN, com descrição e críticas ao enredo, jogabilidade, sonoplastia e gráficos. Mas como fazer a análise de algo tão fora do comum? De algo que divide tantas opiniões por aí? Então o mais “fácil” seria fazer um artigo comum, opinativo sobre várias coisas que o jogo nos faz pensar, mas, principalmente, sobre uma das questões que mais aflige o jogador nos dias de hoje:

“Afinal, o que é videogame?”

Entendendo Journey

Journey não é um jogo comum. E ao mesmo tempo é. O jogo possui começo, meio e fim, bem similar à grande maioria de todos os jogos. Não há liberdade para se fazer caminhos diferentes do proposto pelo jogo, o que alguns chamam de “scriptado”, pois não dá uma grande liberdade ao jogador batalhar seu caminho por seus próprios e únicos meios, o que é bem comum em diversos jogos desde que videogames com um “The End” surgiram, ou seja, há muito tempo. O jogo possui coletáveis que surgem para ajudar ao jogador a chegar mais facilmente ao fim de cada fase também, enfim, ele tem praticamente tudo para torná-lo um jogo absolutamente igual a qualquer um.

Mas aí começa a surgir um ponto que coloca a pulga atrás da orelha de muita gente: Journey é um ART-GAME. Ou seja, ele não está inteiramente preocupado em passar um desafio ao jogador, que muitos clamam que é o objetivo fundamental de qualquer jogo. Journey quer, acima de tudo, passar uma emoção, um feeling, um sentimento, a quem o joga.

Isso é logo percebido por se tratar de um jogo essencialmente solitário (se estiver jogand offline, pois se estiver conectado à PSN, é possível encontrar diversos jogadores espalhados), cheio de atmosfera que exalta essa característica. Journey se passa em enormes desertos cheios de vazios e ruínas e cavernas escuras e também arruinadas. Realmente poucos serão os desafios, mas estes ainda existem. Uma mistura de um puzzle muito fácil com alguns inimigos que o jogador deve desviar (e não combater).

Todo esse clima é evidenciado por gráficos simplesmente maravilhosos, luminosos e brilhantes, com uma trilha sonora bastante inspirada também. É uma experiência no mínimo diferente, assim como foi Flower, da mesma empresa que produziu Journey (ThatGameCompany).

O enredo é deixado basicamente a cargo do jogador para o que está acontecendo, para onde o peregrino está indo, e etc. Isso evidencia ainda mais esse caráter art-game, de tentar impressionar o jogador por suas sutilezas, e não por seus desafios.

“Se eu quero me emocionar, eu vejo um filme ou leio um livro.”

Esse é o ponto principal que eu vejo para muita gente torcer o nariz. E não só com Journey, mas com qualquer jogo que tenha um foco atmosférico dessa forma. E é aqui que cabe a pergunta fundamental: afinal, o que é video game?

Primeiramente, vamos nos atentar às duas palavras que formam a combinação que tanto amamos. Vamos à segunda, primeiramente: GAME.

Game é, em português, jogo. E jogo acarreta em várias coisas às pessoas comuns como nós. Pensamos em esporte, afinal, cada partida de futebol, tênis, vôlei, basquete e vários outros é chamada de jogo. Então, a grosso modo, GAME implica em desafio a ser superado. O jogo de video game é constatemente o ser humano tentando superar a máquina (ou outro ser humano, caso esteja jogando um versus). Esse é o desafio primordial.

Agora, a outra palavra, a primeira: VIDEO. Vídeo é algo visual. Algo que é possível ser visto pelo auxílio de um dispositivo de projeção de imagens. Desde que os video games são video games que jogamos pelo auxílio da imagem. E o vídeo nos refere a várias outras mídias, principalmente às de filme, que procuram nos impressionar, emocionar e/ou chocar através de suas imagens. E o video game não é diferente, a evolução gráfica dos jogos é para cada vez mais procurar nos deixar imersos naquele ambiente, fazer os jogadores virarem o Super Mario ou o peregrino de Journey.

A evolução gráfica traz cada vez mais imersão

Tendo em vista esse caráter visual, semelhante ao dos filmes, é notável que todo jogo tente impressionar por sua atmosfera e feelings passados aos jogadores. Uns mais e outros menos, tudo dependendo da chamada proposta. O difícil é todo mundo compreender todas as propostas e é aí que entram várias injustiças, taxando vários jogos de lixo, falando de “câncer da geração” e coisas do tipo, tudo por causa de uma possível cinematografia existente, uma vontade de tocar o jogador deixando (um pouco) de lado o desafio de se jogar video game.

Mas afinal, Journey é ou não é um jogo de video game?

Mas obviamente que é um jogo de videogame. Ele possui todos os atributos necessários para isso, e o principal é a interatividade. Apesar de ser um jogo extremamente fácil e sem grandes desafios, eles ainda existem, quer queiram, quer não. E jogo fácil existe desde o início de tudo.

Talvez o maior pecado de Journey perante a todos os jogadores seja a sua enorme pretensão em emocionar. E emoção é algo muito subjetivo e é difícil de ser evocado a todos os que jogam. E aí chegam várias pessoas, que simplesmente não compreendem a proposta do jogo (ou insistem em dizer que não se deve analisar a proposta de absolutamente jogo nenhum, o que eu acho um absurdo) e dizem que esse esse tipo de jogo deveria ser abolido e que é isso que “está acabando com os jogos de video game”.

Mas essas mesmas pessoas não entendem que um jogo como Journey pode trazer vários outros públicos aos video games. Essa geração foi a mais diversificada de todas. Temos jogos para todos os gostos: de tiro sem cinematografia em excesso (Gears of War), de tiro com muita cinematografia (Uncharted), de espionagem/stealth com bastante cinematografia (Metal Gear Solid 4) ou sem quase nada disso (Deus Ex: Human Revolution), jogos de dança (Just Dance foi um sucesso), platformers 2D (LittleBigPlanet, Rayman Origins, New Super Mario Bros.), platformers 3D (Ratchet and Clank e Super Mario Galaxy mantêm o gênero em boas mãos)… e jogos atmosféricos, como Journey ou Flower.

Quanto mais jogos diferentes, mais pessoas diferentes podem vir a compreender os video games. E só temos a ganhar com isso.

Querer o fim de certos tipos de jogos é contemplar o próprio egoísmo e é um pensamento “hardcore” atrasado. Video game sempre quis se tornar mais do que um brinquedo para crianças, e é através de jogo mais amadurecidos e tocantes que está conquistando esse espaço, visto que consegue ser apreciado por várias pessoas, devido ao seu desafio ser suprimido perante a vontade de mexer com os sentimentos do jogador.

E não se preocupe ainda, nossos amados jogos tradicionais ainda existem, e surgem cada vez mais!

Não gostar de um jogo é um direito de todos, e é extremamente válido expressar o por que de não ter gostado (desde que tenha jogado, é claro), onde poderia ser melhor e etc. Mas querer impor absolutamente somente sua visão sobre o que deve ou não existir no que tange a video games é ser bastante egoísta. E mesmo assim, não vai adiantar de nada… os rumos da indústria, felizmente, é para surgir cada vez mais gêneros e jogos diferentes, e, ainda assim, continuarmos tendo os tradicionais jogos desafiadores que tanto aprendemos a gostar.

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14 pensamentos sobre “[Consciência Gamer] Journey e a jornada dos jogos

  1. Acho que foi o melhor post do Jogador Pensante em toda a sua história. As pessoas esquecem que existem diferentes tipos de públicos, que obviamente gostam de diferentes coisas. Enquanto eu não curto Visual Novels, outros amam. Tem uns que não suportam RPG, e é meu estilo favorito. O que os jogadores deveriam fazer é parar de olhar tanto pro galho alheio e se preocupar com o seu próprio. Para de achar que todo jogo deve ser igual, deve ser “do meu” estilo favorito.

    Estive defendendo Silent Hill: Book of Memories (PS Vita) por meses a fio da intolerância e imbecilidade alheia. Não porque gostei do jogo, ele sequer foi lançado ainda. Mas por conta da proposta de ser um dungeon crawler, não faltaram comentários “lixo”, “mataram a franquia”, “isso não é Silent Hill”. Ontem, a demo saiu na PSN USA e BR – e os haters SUMIRAM. Praticamente todo mundo que jogou a demo gostou do que viu. Calou a boca dos supostos especialistas, que sequer haviam visto o jogo e já sabiam que seria ruim.

    Experimentar para se expandir. Jogar para formar opinião. Conhecer antes de elogiar ou criticar, ou mesmo de falar sobre. É isso que falta nessa geração, que reclama porque jogos são todos iguais, e reclama quando são diferentes.

    Quanto ao Journey, só preciso dizer que, em 25/33 anos jogando videogame (os fortes entenderão), ele me proporcionou umas das aventuras mais impactantes e emocionantes da minha vida, uma que vai ficar pra sempre na minha memória. E acho que ISSO deveria importar mais pra cada um.

  2. Falarei de Journey por motivos de : eu quero.

    Pra mim essa é a grande magia de Journey…não ser um jogo com um “formato” padrão.Por mais que as pessoas façam escolhas diferentes em Mass Effect,Skyrim,Fallout…a experiência delas com o jogo é sempre muito parecida,ainda te invoca aquele sentimento de estar jogando.

    Journey é tão fudido que estrutura do jogo é ridiculamente simples,você só anda pra frente.Mas TUDO que cerca essa estrutura (interação com outros players,música,gráficos…) ajuda a tornar a experiência única.Pra mim Journey é sobre amizade…já vi gente dizer que é sobre chegar sozinho a um objetivo,já vi pessoas que acham que é sobre adquirir experiência pra poder passar melhor pelos desafios…

    Essa a graça dele em relação aos outros jogos,essa subjetividade que faz o jogo ser uma experiência diferente pra cada um.

  3. Esse jogo é fantástico!

    Depois de ICO e Shadow of Colossus eu meio que tinha desistido de apreciar video games. Continuava jogando, mas apenas para me divertir, não teve nenhum que eu parasse pra refletir e dizer com vontade “esse jogo é foda!”. Sem dúvidas eu sou o público-alvo de Journey!

    Pra mim Journey foi o resultado de algo que a TGC a muito tempo procurava, um game onde o objetivo é transmitir uma experiencia. Isso fica bem claro nos jogos anteriores: Flow e Flower, mas Journey é muito mais forte em vários quesitos.

    Eu ganhei o artbook do jogo (um dos artbooks mais lindos que já vi! A realidade aumentada é fantástica!) e os comentários do Matt Nava são ótimos! E você começa a entender cada detalhe do jogo (é claro que alguem com olhar mais apurado já teria pensado nessas coisas). Quem curte um making of o artbook de Journey é um prato cheio =]

    Mas essa matéria foi ótima, me identifiquei bastante!

    • Que legal seu comentário, Erica! Cada um tem suas motivações para gostar de determinado jogo ou estilos de videogame, e Journey vem nessa onda para nos fazer refletir sobre isso… definitivamente um jogo para se pensar de todas as maneiras hehe!

      Obrigado pelo comentário e elogio!

  4. Adorei o review, principalmente o ultimo parágrafo, eu creio que não é sempre que o jogo tem que se adaptar aos jogadores, os jogadores tbm tem que se adaptar ao jogo.

  5. Pingback: [Neto’s Review] Ori and the Blind Forest | Jogador Pensante

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