[Consciência Gamer] A renovação do terror psicológico

Não é só pela literatura e filmes que os amantes do gênero do terror podem viver seus maiores medos e embarcar em fantasias sobrenaturais. O mundo dos jogos tem nos mostrado que conseguem trazer uma atmosfera tão tensa quanto um livro de Lovecraft ou um filme de fantasmas.

Nos últimos meses fomos surpreendidos por um jogo de terror que causou medo o suficiente para ser o tema de fóruns e redes sociais espalhadas pela internet.  O jogo, uma produção independente da pequena e desconhecida Parsec Produtions, chamado Slender, resgatou a sensação de medo que muitos amantes do gênero terror há muito tempo haviam perdido. A produção foi baseada na lenda urbana do Homem-Esguio (tradução livre de Slender Man), criada nos fóruns do site Something Awful. Tal criatura aparece vestida de terno negro e tem o poder de esticar seus membros para aterrorizar suas principais vítimas: crianças. Mitos urbanos a parte, o jogo nos traz na pele de uma possível criança perdida no interior de uma floresta escura. Sua única arma: uma lanterna.

A bizarra figura do “Homem-Esguio”.

O objetivo do jogo, todo em primeira pessoa, é coletar oito páginas perdidas em dez diferentes partes da região: a floresta, um prédio inabitado, túneis, carros abandonados, entre outros. A cada página coletada, a presença do Slender Man se torna mais próxima e o jogador, a cada momento, pode ser surpreendido com a figura assustadora parada atrás de você.

Slender surgiu como um freeware (software gratuito) e pode ser jogado em menos de 12 minutos. Seus gráficos estão longe de serem os melhores e a simplicidade nos acompanha a cada instante. Todos esses detalhes poderiam ter prejudicado a divulgação do jogo, mas Slender possui um diferencial: ele nos assusta.

Num tempo em que jogos prezam pela ação, encontrar um exemplar que consegue deixar o jogador tenso a cada instante, assustado e sem saber o que encontrará a seguir, é algo cada vez mais raro.

Corra, criança…

Outro jogo alternativo e que teve uma grande recepção, seja da crítica especializada ou dos amantes do mundo do terror, foi Amnesia: The Dark Descent. Lançado em 2010 pela Frictional Games, narra a história de Daniel, um personagem atormentado, que se vê no interior de uma mansão assombrada por um passado negro, tentando reconstruir sua memória perdida enquanto luta contra forças sobrenaturais. Assim como Slender, Amnesia nos mostrou que quanto mais impotentes estamos ao encararmos o desconhecido, maior nossa chance de sentirmos medo. No jogo não enfrentamos os monstros, nós fugimos deles procurando abrigo na escuridão. A mesma escuridão que pode nos levar a loucura dependendo do tempo que ficamos nela.

O protagonista Daniel em um dos tensos momentos do jogo Amnesia.

A empresa Frictional Games, aliás, é especializada em jogos onde o foco é o terror psicológico. Além de Amnesia, possui jogos menos conhecidos como os da trilogia Penumbra, todos em primeira pessoa e com uma ambientação carregada e assustadora assim como Amnesia.

Outra vertente do gênero de terror e que merece ser discutida nesse artigo é a do survival horror. Neste gênero, a ação é introduzida ao gameplay, mesmo que não seja a proposta principal. Muitas vezes, fugir ainda é a melhor opção ao invés de encarar seus maiores medos e inimigos poderosos demais para seu personagem. Aqui serão apresentados alguns exemplos de jogos que foram bem sucedidos ao apresentar um ambiente aterrorizador, onde o principal objetivo era o terror psicológico e não a ação.

Alone in the Dark – O jogo inspirado em obras literárias clássicas do horror.

Resident Evil, 1996, foi o primeiro a utilizar o termo (apesar de outros jogos de terror usarem a aventura/ação a seu proveito, como Alone in the Dark, considerado por muitos como uma das grandes influências dos jogos do gênero, de 1992, e Clock Tower, 1995), mas foi apenas com Silent Hill, 1999, que pudemos jogar um survival horror com ares sobrenaturais e voltado ao terror psicológico. Desenvolvido pelo chamado Team Silent da Konami, o primeiro jogo da série contava a história de um pai desesperado a procura da filha desaparecida pela estranha e abandonada cidade de Silent Hill. Envolta em uma densa neblina e com monstros bizarros, vindos do subconsciente do personagem, o jogo foi aclamado e recebeu o status de clássico.

Os demais jogos da série (até Silent Hill 4, o último criado pela Team Silent) preservam o ambiente assustador e um gameplay repleto de puzzles, onde a ação existe, mas não compromete a sensação de impotência diante o sobrenatural. A franquia se baseia no terror representado pelos ambientes escuros, assustadores e bizarros. Pesadelos e medos são utilizados para criar os verdadeiros vilões da série. Um exemplo disso vem da figura de James Sunderland, protagonista de Silent Hill 2, que vê seus medos e desejos personificados nos monstros que encontra em todo o jogo, enquanto luta para encontrar a suposta falecida esposa. Vem deste título um das figuras mais emblemáticas dos jogos de terror: Pyramid Head. O monstro carrasco, representante da culpa de James, carregado de simbologia como praticamente todos os elementos da série.

“Eu era fraco. Por isso precisava de você… Precisava de alguém para me punir de meus pecados…”

Poderíamos citar outros tantos jogos como os japoneses Kuon, Fatal Frame e a franquia Siren; o subestimado Nocturne da Terminal Reality (que une um enredo fantástico com monstros clássicos como lobisomens, vampiros e demônios) ou o ambicioso e polêmico Phantasmagoria de 1995 com seus atores reais transportados para o mundo dos jogos.

O personagem Stranger enfrenta vampiros no jogo Nocturne.

Mesmo que a ação tenha tomado conta de grande parte dos survival horror da atualidade, jogos simples e alternativos como Amnesia e Slender deixam claro que ainda há um público interessado pelo maior objetivo do gênero de terror: causar medo.

Conhece mais algum jogo que realmente te assuste? Deixe um comentário!

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25 pensamentos sobre “[Consciência Gamer] A renovação do terror psicológico

  1. Eu acho que esse gênero tá fazendo falta nessa geração. Vc olha pra geração passada e vê Haunting Ground, Kuon, um monte de Silent Hill DE VERDADE, Fatal Frame…

    Hoje em dia se não tiver uma arma na mão do cara e um tiroteio frenético, não vende tanto, infelizmente. Por isso as produtoras não arriscam, pode-se ver Resident Evil, que perdeu bastante de sua atmosfera e virou um Third Person Shooter em Resident Evil 5… isso sem falar no Silent Hill Homecoming ou no futuro Silent Hill Book of Memories que, por tudo o que mostrou, vai ser muito voltado à ação.

    • lembra de Eternal Darkness até a Nintendo se aventurou nesse excelente gênero na geração passada. Hoje em dia sofremos com um novo Resident Evil que os Zumbis usam armas e se escondem nas paredes.

    • É muito triste ver essas séries perdendo a essência (Resident Evil e Silent Hill) já que ação vende mais e eles precisam agradar a massa consumidora. Acho que o gênero de terror continuará vivo com essas produções indies que sempre tem esse ar nostálgico.

      Obrigada pelo comentário =)

      • Devo completar esse off-topic dizendo que a Mara é uma das, se não a primeira mulher gamer a fazer parte de um veículo gamístico e não ser um shemale (vide personagens como “Marjorie Bros.” da finada Super Gamer Power).

        *Nós temos vocês não têm feelings*

  2. AITD É o pai dos survival horrors e é um jogo muito unrated, ao meu ver. Sou fanboy desde criança, porque é um jogo onde as ameaças causam tensão, tem leituras e narrativas aterrorizantes ao longo da história e a ambientação é perfeita, fora que os puzzles fazem sentido, diferente do tão aclamado Resident Evil, que já era fraco e hoje em dia virou um shooter de zumbi.
    Gosto muito dos jogos da série Penumbra, porque eles realmente são aterrorizantes e muito tensos de se jogar. Esse jogo do Slenderman que foi viral, por outro lado, não achei grande coisa, mais por ser um jogo de sustos gratuitos, apesar de ter uma boa ambientação.

    • Ele realmente é subestimado, principalmente se comparado com um Resident Evil da vida. Eles podiam pensar em um remake do primeiro, priorizando o medo ao invés do combate. Seria algo interessant de se ver.
      Eu estou jogando o segundo Penumbra e realmente é aterrorizador. Achei até mais que o Amnesia. Mas Slender é bom hehehe bem, eu senti medo (mais da ambientação do que do Slenderman em si).

      Valeu por comentar! 😉

  3. Gostei do artigo, ficou muito nostálgico: relembrar antigas obras desse gênero e conhecer os novos emergentes pelo mercado indie, dá muita saudades de quando os vídeo games não visavam só lucros.

    Penumbra é perturbador eu achei um jogão.

    • Falou tudo, hehe, nostalgia completa! E é um gênero que merece ser relembrado pela nova geração! Ainda bem que tem essas empresas que ressuscitam o amor pelo medo, ao invés de criarem mais um jogo de ação.
      Valeu, Rodrigo 🙂

  4. Muito bom o artigo, realmente tem uma carência desse tipo de jogo atualmente, eu estou bem inclinada pra jogar Slender (não ainda não joguei), mas preciso criar coragem antes hUAIHiuahuiHAIUH Bjus

  5. Alone in the Dark foi talvez o único jogo do gênero que eu realmente gostei. Joguei muito o 3 e o New Nightmare, possuem ambientações muito boas. Pena que estragaram a série nessa geração, assim como muitas outras séries de muitos outros gêneros.

    Gostei do artigo, bom saber que alguém ainda tem o bom senso de manter o gênero vivo, mesmo que essas pessoas sejam de empresas independentes. Aliás, por ser independente muitas vezes é até melhor, pois não se prendem a valores tendenciais do mercado.

    • O New Nightmare foi o primeiro Alone in the Dark que eu joguei. Achei fantástica a ambientação e história. Alone in the Dark não merecia o “fim” que teve. Aliás, nenhuma dessas séries de terror mereceram o fim de virarem joguinhos simples de ação. A Konami, alias, nem disfarçou, já que até demitiu o Team Silent com o pretexto que Silent Hill precisava de uma mudança.
      Acredito que enquanto o interesse da nova geração seja em jogos de ação rápidos, que o jogador não precise pensar muito no que faz, a salvação do terror fica nas mãos de empresas indies mesmo (talvez seja realmente a melhor solução).
      Valeu por comentar, Tomio =)

      • Acho legal os trabalhos Indies, mas ainda sim uma grande produção com anos de dedicação seria excelente. É uma pena ver Resident Evil 6 e o lado que a Capcom está escolhendo, mas não tinha como ser diferente Resident Evil 5 foi o RE mais vendido da historia, a empresa vai querer só continuar o que agradou, uma pena.

  6. Lembro de um jogo online aterrorizante que você só poderia jogar a noite (pelo menos “a noite” no relógio do pc). Era em hotel e você só conseguia iluminar seu caminho através do flash da máquina fotográfica. Foi o jogo mais aterrorizante que já joguei. Infelizmente acho que não existe mais, porque já procurei e não acho.

    • Eu conheço esse. Mas também né Rodrigo… Clive Barker! hehehe esses jogos são ótimos e foram esquecidos. Que nem o caso do Nocturne. Tem o Dark Fall também, muito bom e ninguém conhece!

  7. Nossa, depois de SH e Fatal Frame (os três primeiros), Slender foi a coisa mais assustadora que joguei (mesmo perdendo logo no começo, com uma nota)…Fatal Frame me dava pesadelos, SH idem. RE, bom RE não me dava medo exatamente, mas sempre passava aquela sensação de que lugar nenhum era seguro e eu até levava uns sustos nos antigos. Pena que RE e SH não continuam mais os mesmos, apelando pra ação. De qualquer forma, fico feliz que ainda exista esses games alternativos que passam esse medo intenso, que apesar de me fazer sofrer horrores, eu amo jogar. (Um PS aqui: ficou mto bom o artigo! Vc leva jeito :O)

    • Slender tem esse poder mesmo hehe quando menos espera, você fica de cara com o perigo e sem qualquer tipo de defesa. E isso é a melhor coisa num jogo de terror.
      E você falou tudo. A falta de um lugar seguro é o motor do medo num jogo de terror.
      E eu descobri que a empresa que fez Amnesia já está produzindo um novo jogo: Amnesia: a machine for pigs. Gostei do título. Parece assustador. Será lançado ano que vem 😉

      Obrigada pelo comentário, Kelly 😉

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