[Choose your character] John Marston

***Atenção!!! O texto abaixo contém muitos spoilers de Red Dead Redemption***

Não me lembro exatamente do dia em que os federais vieram até a minha fazenda e me levaram para prestar um maldito depoimento. Afinal, não era todo dia que encontravam um tal de Edgar Ross morto no leito de um rio qualquer do México. E todos sabiam que a suspeita recaía sobre mim.

Nunca fui de beber, mas fiquei sabendo que meu pai o fazia. E também soube de várias outras coisas. Coisas piores do que a bebida, então não fará diferença se eu beber agora ou nunca mais, não é mesmo? Acho que vão me enforcar, agora que sabem que eu matei o maldito federal que matara meu pai a sangue frio. Meu pai, John Marston, uma hora colocando bois para dentro de um cercado em nossa fazenda em Beecher’s Hope, e outra cercado por federais, loucos por sangue, mandados por um federalista de merda.

Mas claro que houve um julgamento. E me perguntaram várias coisas, inclusive quem eu era.

– É Jack Marston, filho de John Marston? – perguntou o palhaço que interpretava o juíz naquela porcaria de encenação. Eu preferia as coisas do jeito antigo, um tiro limpo na minha cabeça, e, BANG!, minha dívida estava paga. Mas, como diziam, a civilização estava chegando ao chamado Selvagem Oeste, e essa era a forma que os civilizados arrumaram para tratar de mim: um circo bem montado, procurando me julgar de alguma forma. Hipócritas.

– Sim, sou.

Eu estava amarrado, pés e mãos bem presos e não podia me mexer. A cadeira de madeira era desconfortável, mas as poucas lembranças que eu tinha de meu pai eram piores ainda.  Do alto do meu desconforto, físico e emocional, chegou um outro federal qualquer, mais um homem uniformizado que fazia o que lhe mandavam, me olhou de cima de um palanque (afinal os palhaços precisam ser vistos do alto, para receberem seus aplausos) e perguntou-me:

– É verdade que seu pai era filho de uma prostituta?

– Sim. – Eu não tinha vergonha nenhuma de minha avó. Nunca a conhecera e nem mesmo meu pai. Não iam me pegar nessa.

– E a sua mãe também é uma prostituta, correto?

– Sim.

– Eu vejo aqui uma constância na família! – E riu. E todos riram. Por mim eles bem poderiam lamber os cus uns dos outros que eu não me importaria. Seria até mais civil da parte deles, se a civilização era assim tão importante agora aqui no oeste.

Era 1914 agora. Meu pai viveu até 1911. E eu te digo: John Marston viveu intensamente.

Nascido em 1873, meu pai perdeu o seu em 1881 e viveu em um orfanato até fazer 17 anos, em 1894, quando conheceu minha mãe, Abigail. Um pouco depois conheceu seu salvador e demônio: Dutch van der Linde, o dono de uma gangue da mais maléfica espécie  que você pode imaginar.  Roubos a bancos e a trens, assassinatos, absolutamente tudo o que dá para imaginar de fora-da-lei esses caras aprontavam. E meu pai estava no meio,  é claro.

Tudo corria bem até meu pai ser alvejado em um assalto a um banco qualquer. Talvez tivesse continuado nessa sorte, se não tivesse sido abandonado por Bill Williamson, aquele rato. Esse foi o ponto em que meu pai decidiu parar com essa vida bandida e tentou iniciar sua fazenda com minha mãe, eu e o Tio, um velho que já era velho quando meu pai ainda era criança.

Eu até cheguei a ter uma irmã nessa época, mas o pai e a mãe tiveram que enterrá-la por conta de uma doença. O oeste não perdoa. Nunca perdoou. Não seria daquela vez.

Apesar da minha irmã morta, meu pai conheceu o revés novamente: a perda da família, dessa vez sequestrada pelos  próprios senhores da lei. Ele só nos reaveria caso entregasse a cabeça dos seus antigos amigos, se é que se pode chamar um bando de porcos imundos dessa forma.

Foi um período conturbado para mim, e não me lembro muito. Trauma, um médico de Blackwater uma vez me disse. Talvez o trauma de estar trancafiado em um lugar estranho e sem meu pai pudesse ter me feito esquecer boa parte do que fora o sequestro.

Mas meu pai foi em busca da vingança que nunca quis. Não havia do que se vingar, na verdade, ele era da mesma raça que eles. Talvez seja por isso que tenham atirado nele em uma armadilha covarde, talvez ninguém realmente possa se redimir. Isso são assuntos de padres e pessoas de religião, coisa que não sou. E também é coisa da justiça do Estado, segundo o que consigo perceber.

Meu pai conseguiu tudo o que os federais pediram e pudemos voltar felizes à nossa fazenda em Beecher’s Hope e fomos felizes pelo tempo que os filhos da puta deixaram. Peço perdão às putas por ter usado esse termo, principalmente à senhora minha mãe, que era uma puta de respeito. Na verdade eu retiro o que disse, Edgar Ross e sua trupe de saltimbancos armados não merecem ser filhos de putas.

Ainda me lembro de quando meu pai me colocou na garupa do cavalo, com minha mãe, e disse para nos dirigirmos para o mais longe possível. Não queríamos, mas fomos. E só depois ouvimos os tiros. E eu nem precisei esperar para ver o cadáver. Eu sabia que ele estava morto. Morto como um rato que é pego or uma ratoeira. A grande ratoeira da civilização.

Tudo o que o pai procurou para si foi a redenção. Redenção para trazer uma vida digna não a ele, mas a sua família. Acho que no final ele se redimiu sim. Mas quem redimiu sua alma foi eu. E a redenção veio com a morte, a morte de sangue vermelho de Edgar Ross que manchou o rio. O sangue de Edgar Ross. Uma redenção morta vermelha, por falta de termo apropriado.

Agora estão laçando meu pescoço. Firme. Eu penso em meu pai. O alçapão abaixo dos meus pés vai se abrir a qualquer momento. Quando ouvir o barulho, saberei que a alma de meu pai descansa em paz. Eu busquei sua redenção.

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12 pensamentos sobre “[Choose your character] John Marston

  1. Ganhou meu respeito incondicional. Texto PERFEITO!!! Vou até salvar em PDF, porque eu preciso reler mais vezes. Não consigo dizer o quão foda ficou o texto. Parabéns!!!

    “E eu te digo: John Marston viveu intensamente.”

    Uma coisa é certa sobre John Marston: “He died with his boots on!”

  2. Acho que vou ser até repetitivo aqui, afinal, todos disseram a mesma coisa. Mas, o texto está muito foda velho e deu muita vontade de jogar RDR…as referencias ao nome do jogo eu achei perfeito, parabens amigo.

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