[consciência gamer] o mito de Hércules e os games

Representação em alto-relevo dos Doze Trabalhos de Hércules.

Hércules, filho de uma mortal chamada Alcmena que se deitou com Zeus, nasceu do adultério e foi um dos maiores heróis gregos, senão o mais famoso e admirado. O mito de Hércules é marcado por grandes desafios, aparentemente impossíveis, propostos por Hera, que descontava em Hércules o ódio causado pela traição de seu marido mulherengo e rei dos deuses, através do Rei Euristeu que propunha ao herói o que ficou conhecido como OS DOZE TRABALHOS DE HÉRCULES, uma espécie de Via Crucis grega, já que estes serviram como forma de padecimento pelo crime cometido por Hércules, que matou sua família após ser enfeitiçado por Hera.

Estes desafios, no entanto, foram um a um sendo superados pelo semideus através de sua força, astúcia, mas sobretudo, através de sua persistência inabalável, esta última, aparentemente o ponto mais importante da história, que possui o fundo moral de que é preferível morrer do que deixar-se levar pelas circunstâncias, sem despender o máximo esforço para superar as adversidades.

Todos os desafios superados por Hércules, todos eles, foram feitos memoráveis. No entanto, alguns ganharam mais destaque, principalmente no mundo dos games, evidentemente através do modo como o super-herói grego conseguiu superá-los, de maneiras bem parecidas como as que um jogador qualquer consegue derrotar um chefe nos games atuais, ou, com resultado também semelhante, quando o jogador, após ter derrotado o monstro, usa sua pele para fazer uma armadura impenetrável.

Hércules inventou o mata-leão, no Leão de Nemeia. hehe

Assim, pode-se citar o trabalho em que Hércules foi incumbido de matar o Leão de Nemeia, besta fera das mais perniciosas na mitologia grega, com sua pele imperfurável e garras mais afiadas que qualquer xiphos (espada grega), o monstro aterrorizava as terras de Argólidos raptando mulheres, ao que Euristeu encarregou Hércules de dar fim ao banho de sangue e livrar a Grécia desse mal. Como a pele do leão não poderia ser perfurada por arma alguma, não restou outra alternativa ao herói senão estrangular o bicho com uma espécie de golpe conhecido hoje em dia como, pasmem, mata-leão.

Após morto, Hércules aproveitou a pele impenetrável do Leão de Nemeia para usá-la como armadura. A partir desse instante, Hércules passou a ser representado em esculturas e pinturas em cerâmica vestindo a pele do Leão, usando a maxila superior como um elmo, suas costas protegidas pelo torço do leão, Hércules jamais poderia ser pego na desprevenido, pois ataca-lo pelas costas era inútil.

Great Jaggy Armor em Monster Hunter Tri.

Sim, Hércules fez da pele do monstro uma armadura. Qualquer semelhança com os sistemas de crafting de itens lendários nos RPG’s atuais não é mera coincidência. Sim, quando se derrota um monstro em Monster Hunter, recolhendo-se o couro, os ossos, os dentes ou os chifres dessas feras para com elas fabricar itens mais fortes, o que se faz é meramente reproduzir algo que se considera admirável desde a antiguidade remota: Conquistar a natureza e com estes espólios, tornar-se ainda mais forte. É satisfatório e prazeroso, caso Hércules realmente tivesse existido, a satisfação em ter feito da pele do Leão de Nemeia, filho de Tifão e Equidna, sua armadura impenetrável com certeza seria análoga à satisfação do jogador ao conseguir forjar aquela armadura lendária cujos itens foram conquistados a duras penas.

Hércules e a Hidra.

Depois do seu primeiro trabalho – que deveria ter sido o último de acordo com o planejamento de Hera – a Hércules foi dada a missão de matar um monstro que trazia a morte nas imediações do pântano junto ao lago de Lerna, também na Argólida. A Hidra de Lerna, outro filho de Tifão e Equidna, era um dragão mutante com nove cabeças de serpente que baforava um gás venenoso mortal. Hércules então foi decapitando as cabeças da hidra para evitar seu veneno, no entanto, a cada cabeça decepada, duas nasciam no lugar. Foi então que o herói teve a ideia de cauterizar as feridas para que as cabeças não se regenerassem, e assim, matou livrou o Lago Lerna de seu terror.

Blood Dragon Armor

O espólio deste trabalho foi o sangue da Hidra, o veneno mais potente de toda a Grécia. Hércules mergulhou suas flechas no sangue, tornando-as insuportavelmente tóxicas. Também não é nada espantoso usar substâncias lendárias, como o sangue de algum monstro, para aumentar o poder de dano de uma arma, sobretudo se o sangue for de um dragão lendário, e se com nove cabeças, melhor ainda! É praxe na grande maioria dos RPG’s, Neverwinter Nights, ou Baldur’s Gate. Em Dragon Age temos até mesmo uma armadura forjada a partir do sangue de um dragão mais por influência do mito de Siegfried, mas ainda assim possuindo a mesma moral: dominar a natureza e tornar-se mais forte a partir de seus espólios.

Hércules enfrentando as aves comedoras de homens do Lago Estínfano, com suas flechas venenosas.

E Hércules cumpriu seus Doze Trabalhos, sempre usando o que a vitória lhe presenteava para facilitar sua vida, deixando-o mais poderoso, cobrindo-se com o manto do Leão de Nemeia, usando as flechas venenosas para abater as aves homicidas do Lago Estínfano, bem como enfrentar o gigante Gerion, até sacrificar-se em uma pira e alcançar a imortalidade, tornando-se um Deus do Olimpo. Todas estas histórias contribuíram para a construção da concepção de itens lendários, monstros aparentemente insuperáveis, e o valor da persistência não só na vida cotidiana, mas sobretudo no universo fabuloso dos games, onde a criatividade dos produtores é praticamente ilimitada, em que se pode criar e recriar mitos.

Obrigado por lerem!

Anúncios

2 pensamentos sobre “[consciência gamer] o mito de Hércules e os games

  1. Mais uma prova de que os games estão sempre acrescentando algo a mais do que controle de pontos moventes na tela. Ótimo artigo.

    O ideal seria que as pessoas, não diria aceitassem, mas ao menos compreenderem que o videogame sempre foi um entretenimento variável e/ou evolutivo. Ou melhor, percebessem que os elementos que muitos negam nos games estão presentes já há muito tempo, às vezes de forma inusitada, inclusive em seus jogos favoritos, como mostra esse texto.

    • O objetivo dos textos que escrevo de tema “consciência gamer” são justamente isso que você ressaltou: Mostrar, destacar, que os jogos são resultado da cultura popular e possuem, sempre, elementos históricos, religiosos, mitológicos, etc.

      Obrigado pelo elogio!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s