[Consciência Gamer] Alguns games são coisa do diabo

Cena do filme "1984", adaptação do livro de mesmo nome.

Hegel

Hegel foi um dos grandes filósofos que de fato exerceu enorme influência na formação dos institutos que regulam as relações de poder que conformam a modernidade. Pronto, gastei. Esse filósofo escreveu muito sobre muitas coisas, e é difícil entender o que esse alemão quis dizer, mas uma coisa todo mundo entendeu: O Estado é a realização de Deus na Terra. Sim, ele disse isso. E essa foi a máxima que estruturou a criação do Estado Prussiano, e que preparou um terreno fértil para o processo de quartelização da Europa, teorizado por outro alemão chamado Clausewitz.

O olho que tudo vê, o olho do Faraó, o olho do Estado Egípcio.

Não que o hipertrofiamento do Estado fosse novidade na época. O Estado sempre foi hipertrofiado, e muitas vezes até mesmo comparado a Deus, no caso dos Faraós, ou mesmo no caso dos reis absolutistas. Essa história é velha, e só de analisar o nome que se dá aos legitimadores do Estado, já sabemos em que se está pisando. A única coisa estranha é alguém, depois da Revolução Francesa (le stade sur moi), trazer a ideia de que Estado é Deus, mesmo porque, Estado pressupõe alguém que manda, e se alguém que manda controla o Estado, e o Estado é Deus, então alguém manda em Deus, o que é uma grande incongruência. Mas, para um povo que sentia tanta falta de um Estado Nacional, como os alemães, até que dá para compreender porque da superlatividade da importância que deram pra isso.

Enfim, tudo bem que a lógica dessa comparação, equiparação, não era pra ser exatamente esta, mas muitos espertalhões desvirtuaram esse conceito que deveria ser permeado de valores morais e éticos, e viram uma grande oportunidade de controlar o Estado, a única coisa que pode sim fazer uma força invisível super poderosa – que muita vezes se materializa em muita porrada.

A partir daí, o Estado moderno, de maneira democrática, virou um Estado Grandão, e grandes líderes representando as elites nacionais acabaram por suprimir a própria democracia, que ficou latente no planeta Terra desde as Guerras Mundiais (na verdade, foi desde sempre, e até hoje se tem algumas dúvidas sobre sua existência, mesmo porque, demos, não combina com cracia), até o fim da década de 1980, quando finalmente o Muro de Berlin veio a baixo.

VOCÊ!!! >D EU??? Ô.Ô

E foi assim que a luta pela liberdade acabou sendo uma luta contra o próprio Estado, sem nem mesmo que houvesse uma ideologia anarquista por trás desses movimentos. O problema muitas vezes era que o Estado passou por momentos de muita divindade, e estava em todo lugar literalmente. Daí surgiu a expressão Big Brother, pra ver como isso é nocivo hehe. Desse jeito é fácil ficar de saco cheio, e mais ainda tomar-se uma espécie de anarquista, que sempre são enviados do inferno, visto que Estado é Deus, como disse aquele lá.

Mas, como já foi dito, depois que o muro, que também era alemão, caiu, a democracia começou a ser reconsiderada no mundo com um pouco mais de carinho, mesmo porque, muita gente já a conhecia e a informação estava cada vez mais incontrolável em razão da internet e coisa e tal. Fora que não havia mais socialismo na Europa pra ficar torrando o saco dos capitalistas que gostam de liberdade para eles, mas não para você, ou eu.

Infelizmente, como nada dura para sempre, muito menos momentos de paz e aparente autodeterminação, foi só a Guerra Fria acabar que em menos de 10 anos, trocaram o socialismo pelo terrorismo, e em países considerados berços da democracia moderna e tudo mais, tiveram seus governos começando novamente a ter ideias fascistas de restringir a liberdade de seus próprios povos. É por isso que a luta pela liberdade não vai parar jamais, e agora, não só através de romances, músicas e filmes que militam no sentido da liberdade, mas também através de jogos de vídeo game que tanto adoramos.

Camrade Black

Um exemplo notório e muito divertido de luta pela liberdade é o jogo De Blob. Nele, você é uma bolinha, mas não uma bola comum… O jogador encarna, ou pigmenta-se, em uma bola de tinta que luta contra a dominação sem graça e cinza de um ditador que poderia ser considerado tão ruim quanto Stalin, ou mesmo pior, já o russo lá ao menos ainda passava uma “tintinha” vermelha, pra quebra o bege. Já o vilão totalitário, o Camrade Black, pretende deixar o mundo nomocromaticamente preto.

O interessante é que, apesar de Camrade Black ser uma versão cartoonesca de Stalin, ou Hittler, seus subalternos são a expressão chargística de guardas ingleses, o que coloca deixa implícito que o problema não é a individualidade de algum cara maluco que quer mandar em todo mundo, mas que o Estado, por si só, já possui essa característica, ainda que seja um estado liberal, como o Estado inglês. Estado é Estado, e suprime a liberdade, esteja no poder quem estiver.

Outro olho que tudo vê. Em um dollar.

Aliás, outro exemplo de luta pela liberdade em Estados Liberais, que são locais que propiciam o ápice da liberdade humana (para quem tem dinheiro) é encontrado em Red Dead Redemption. No jogo em que você controla John Marston, trilhamos o caminho de um cara abandonado pelo Estado (que é liberal, então você é livre pra ser ferrar e o Estado não precisa de dar mãozinha alguma – a não ser que seja pra te dar alguma bofetada), cuja mãe é prostituta e o pai é um delinquente, e que, por certo, acaba virando um trombadinha que acaba virando um bandido procurado, e que, depois de ser preso (o que é o de menos, no fim das contas) recebe do Estado uma rara oportunidade de ser redimir e reaver sua liberdade (como se Marshton algum dia pode lançar mão de sua teórica autodeterminação).

Então, você sai pelo imaginário EUA do game caçando seus antigos colegas de gangue, achando que, no final de tudo, você finalmente poderá ter seu rancho com sua mulher e filho. Bem, quem jogou o game, sabe como o Estado Liberal, defensor da livre concorrência, da autodeterminação, da liberdade de expressão, e tudo o mais, trata quem não tem dinheiro pra comprar tudo isso que citei acima. Ainda mais se quem não tem a grana, ainda possui um comportamento que seja indigno de tais liberdades acima citadas.

Não tem nada a ver com censura. É só o Mito da Caverna.

Por fim, outro jogo que me chama a atenção na luta pela liberdade e autodeterminação, é praticamente uma paródia do Mito da Caverna, contado por Platão, é a história contada por Fallout 3, pelo menos o início dela… Que não se passa em uma caverna, mas em um bunker, Vault 101, e que não tem muito a ver com luzes causando sombras, apesar de que não duvido da possibilidade de haverem espectros de raios-x pintados nas paredes. O inicio do jogo coloca justamente essa questão, de um poder centralizado, um Estado, a manipular toda uma população, ainda que pequena, tolhendo sua liberdade de determinação em favor de uma verdade que falsamente defende o bem de todos.

Vault 101 de Fallout. Onde os habitantes estarão sempre seguros e livres.

E vários são os games que tratam desse assunto. Só que este texto já está enorme, então teremos que parar por aqui, pois o editor do Blog, o Excelentíssimo Sr. Dr. Neto já me olhou de rabo de olho. Tudo bem que temos liberdade, mas escrever tudo isso, e ainda falando não tão bem da realização de Deus na Terra, já é abuso e pode ser interpretado como coisa do Diabo. Como não quero ser queimado, junto com todo o blog, vou calar-me :X. Brincadeiras à parte, apesar de muitas vezes haver exagero da restrição das manifestações da liberdade, querendo ou não, sem o Estado, as coisas seriam consideravelmente bárbaras. Como bem diz o processualista Tourinho Filho, “se não houvesse um poder, nessas sociedades, restringindo as condutas humanas, elas jamais subsistiriam“.

Espero que tenham gostado do texto, e que comecem a reparar em como os jogos, de um jeito ou de outro, criticam o cerceamento da liberdade de todos nós. Obrigado por lerem!

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Um pensamento sobre “[Consciência Gamer] Alguns games são coisa do diabo

  1. Texto muito interessante parabens!!!
    Um bom jogo que tambem serve como exemplo é Assassin’s Creed, cujo os templários são uma organização secreta que possue o verdadeiro poder usando o Estado como fachada atraves de seus falsos dogmas e ideais para conseguir seu verdadeiro objetivo.

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