[Consciência Gamer] Das várias experiências gamers ou “Isso não é jogo”!

Não é desse tipo de experiência que vamos falar por aqui!

Videogames. Palavra que traz à imaginação dezenas de coisas possibilidades e gêneros diferentes de jogos. Desde o clássico pular e sobre a cabeça de inimigos, passando por esportes e chegando em jogos que exigem mais do intelecto e paciência do que na agilidade dos dedos ou perícia, os videogames sempre gostaram de se aventurar nas mais variadas experiências, sejam elas buscando algo mais próximo do real ou uma verdadeira viajada na maionese.

Com o poderio gráfico e técnico só aumentando a cada geração, as experiências são largamente expandidas, com jogos buscando parecer até mesmo um filme, procurando um apelo maior ao enredo, criando uma ligação afetiva do jogador com o universo do jogo. Não vou entrar em questões qualitativas, se tal gênero se sobrepõe ao outro, pois isso é inútil: qualidade quem determina é cada um.

O problema dessa expansão de gêneros, introdução de conceitos que não eram comuns aos videogames e agora são, aumento de cut-scenes, mecânicas simplificadas e jogos não focados em ação, dentre diversos outros fatores, é que o jogador começa a se perguntar se está realmente jogando um JOGO ou se está somente interagindo minimamente com um filme passando ali na sua frente. Esta geração é certamente criadora de experiências que chegam na fina linha que separa um jogo de um filme interativo.

Pode-se usar como exemplo-mor desse tipo de experiência ambígua o exclusivo para o Playstation 3 Heavy Rain. O jogo, como muito já discutido em fórums e aqui mesmo no Jogador Pensante, foca em experiências que fogem da ação e focam principalmente em uma investigação e pressupõe diversos finais, conforme suas ações. Ok, legal, bem legal. O problema é que, para que seja realizado um jogo dessa forma, um excesso de falas, cut scenes, interatividade com o cenário em geral, de forma lenta e que requer paciência. E é então que se inicia a ambigüidade.

Heavy Rain

Afinal, por que jogar algo dessa forma? Nem essa maldita cut-scene eu tenho como pular! Eu odeio esses filminhos! E o jogo só tem isso! Meu Deus, “ISSO NÃO É JOGO”!

Mas é óbvio que é um jogo, caro leitor. A interatividade está ali, o jogo não segue sem a ação do jogador, que determina o que acontecerá depois. Antes de se jogar um jogo como Heavy Rain, deve-se prestar atenção em sua proposta. É como iniciar Super Mario Galaxy e esperar corridas de Need for Speed ou um tiroteio de Call of Duty. Obviamente o jogador não vai ter isso.

Para se jogar um jogo como Heavy Rain, o jogador deve ter em mente que vai jogar algo bem parecido com um Point’n’Click. Quem nunca se divertiu com Broken Sword? Ou com Gabriel Knight? Heavy Rain tem basicamente o mesmo conceito, só que apoiado em Quick Time Events. Para alguns, o jogo ser basicamente um “mash button de Quick Time Event” invalida sua experiência gamer, levando o jogo a um status de filme interativo, um jogo bobo e que independe da perícia do jogador.

Gabriel Knight

Até concordo que a perícia do jogador é deixada de lado em Heavy Rain, visto que o jogo não tem game over, mas tem mais do que um final. A possibilidade de se chegar vivo ou morto ao final com determinado personagem em Heavy Rain requer perícia no pensamento rápido do jogador e o faz sentir o peso de suas decisões. Por bobeiras perde-se um dos personagens e não há outra chance, a não ser que se inicie um novo jogo.

O foco no enredo de alguns jogos, como o exemplificado acima, também é alvo de constantes críticas. O excesso de cut scenes em Metal Gear Solid 4 faz o jogo ser um grande alvo de ser taxado de ser menos jogo do que filme. Mas veja bem, leitor, o que pega nesta geração é uma diversidade maior e muitos produtores estão aproveitando para brincar de cineastas também.

Um jogo que seria baseado meramente em uma experiência de destruir os deuses do Olimpo transforma-se em um épico devido ao seu trabalho gráfico magnífico e a releitura da mitologia grega em God of War III. Os diálogos ajudam a passar a fúria de Kratos perante a traição do Olimpo, bem como o nível de brutalidade aumenta demais com as inúmeras cut scenes de finalizações de chefe. Dá muito mais gosto arrancar o olho de um ciclope apertando freneticamente um botão, em uma Quick Time Event, do que ele simplesmente cair no chão e ali ficar.

Brutal.

O ponto chave é o jogador saber o que o agrada e o que não o agrada. Taxar os jogos focados em uma experiência diferente do comum simplesmente de “anti-jogos” ou “filmes interativos“ só demonstra uma ignorância e egoísmo tremendos. Há quem prefira jogar Heavy Rain ao invés de descer a espada em um archdemon de Demon’s Souls. E há, ainda, quem prefira jogar Mario Kart. E aí, um é menos gamer do que o outro por gostar de um jogo focado em seu enredo, mas com a execução deste sendo realizada pelo jogador? Ou será que o que joga Mario Kart é menos gamer ainda do que os outros dois?

Tudo é jogo desde que se tenha que executar um comando para se avançar no caminho, esteja o jogador mergulhado na trama de Heavy Rain, acabando com deuses, correndo em um kart ou defendendo, esquivando e atacando em Demon’s Souls.

Essa é mais jogadora do que qualquer um!

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3 pensamentos sobre “[Consciência Gamer] Das várias experiências gamers ou “Isso não é jogo”!

  1. Eu vejo essa discussão também relativa a visual novels. Elas são jogo ou livro interativo? Não joguei ainda Heavy Rain, mas pelo que li sobre esse game na net (inclusive aqui no blog), parece-me haver um princípio similar. Apesar de haver novels com Game Over e Achievements além da opção de se escolher o andamento do enredo, também há outras com “aspectos clássicos” de games em quantidade bem menor, limitando-se a escolhas aqui e ali mesmo.

    Eu não sou muito de rotular algo como jogo ou não, porque é algo que não me preocupa. Se me entrerte, eu considero entretenimento, e não ligo muito de saber se é isso ou aquilo especificamente. Se me perguntarem se uma visual novel é jogo ou livro, por exemplo, eu diria que é os dois. Você pode interagir com ela de ambas as formas, e é inclusive um ponto a mais por conseguir se focar em dois tipos de público.

    Isso de algo “ser ou não”, dentro de entretenimento, vejo meio que como besteira. Se for assim caímos em discussões como “isso é música ou não?”, “isso é literatura ou não?” e outras que em última instância não levam a lugar algum. No final acaba sendo sempre questão de gosto, do que a pessoa aprecia e se sente bem em fazer pra se distrair.

    Bem bacana o post.

    • Do meu ponto de vista, no caso das Visual novels, elas são o que o nome sugere…novels. Ou seja, livros digitais, interativos, afinal, elas necessitam sim do leitor clicando para “virar a página”, mas a única coisa que exigem além disso é atenção na leitura. Sobre escolhas e finais alternativos, vale lembrar que alguns livros também possuem esse “sistema” , levando o leitor para a página específica da rota que ele escolheu, então se for considerar uma VN como jogo, é preciso considerar esses livros como um também. Particularmente, independente de ser ou não um game, gosto muito de VNs, pois proporcionam uma experiência literária bem menos cansativa, além de fazer o leitor se sentir bem mais próximo do universo da obra (dependendo da qualidade do enredo, claro).

  2. Ótimo texto. E concordo com essa de rotular jogos, ou mesmo dizer que algo é um não jogo, ou anti-jogo como você diz… Anti-jogo só existe no futebol pra mim, e ainda tem que ser punido com cartão amarelo hehehe Essa postura remonta à ignorância intrínseca a seres cuja idade mental ainda se encontra na adolescência, ou seja, aquele típico caboclo que quer contestar mesmo, ser o mais radical e ignorante possível, na tentativa de encontrar sua personalidade, ou afirmar a personalidade que acha que tem. Absolutamente ignorável.

    Enfim, não importa o que Heavy Rain, GoW3, Vanquish ou FIFA sejam. São obras interativas de entretenimento eletrônicas e transmitem cultura, bem ou mal, de um jeito ou de outro. Se isso damos nome a isso de jogo ou não, não importa. O que importa é que existem e são legais!

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