[Neto’s Review] Alan Wake

“Nightmares exist outside of logic, and there is little fun to be had in explanations; they’re antithetical to the poetry of fear.”

Capa do jogo

ENREDO

O estúdio finlandês chamado Remedy é famoso por seu trabalho com a série Max Payne, que é uma pérola da geração passada e conta com dois jogos muito aclamados. Com a fama vem as exigências, os hypes e tudo aquilo mais que pode deixar o jogador eriçado para um novo lançamento de uma empresa competente. Alan Wake não escapou disso.

O exclusivo do Xbox 360 demorou muito a ser lançado, antes era para PC e Xbox 360, depois passou a ser somente do console da Microsoft. Foram vários anos de promessas, especulações, vídeos lindos e maravilhosos. Mas enfim, ao enredo do jogo, visto que a produção não é o foco.

Alan Wake conta a história de Alan Wake (oh, really?), um famoso escritor americano que sofre de bloqueio criativo e não consegue escrever há algum tempo. Para tentar fazer sua cabeça voltar a funcionar e fazer de Alan um escritor produtivo mais uma vez, sua esposa decide fazer uma viagem a Bright Falls, uma cidade pequena longe do caos de Nova York. Eles nunca deveriam ter ido para lá.

Bem-vindo a Bright Falls!

Logo ao chegar em Bright Falls, o jogador já nota que há algo de errado na cidade, afinal, as chaves para a casa que o casal alugou foram entregues por uma estranha mulher, e não pelo homem que tinha sido combinado. Ao chegarem na casa, que fica em uma ilhota no meio de um lago, os problemas começam para Wake e sua esposa.  A esposa some e é aí que começa realmente o mistério de Alan Wake (o jogo e o personagem): onde está Alice? O que aconteceu?

Deve-se ressaltar que grande parte dos personagens de Alan Wake contam com problemas causados por trauma e estão sempre lutando com seus demônios interiores. E disto nem o próprio Alan escapa, que se vê em uma guerra contra a própria escuridão, que vai tomando conta dos cenários durante a noite, bem como possui os corpos de outras pessoas, que, envolvidas na escuridão, são chamadas de Taken. São os inimigos mais comuns do jogo.

Alan Wake vai além da luta do bem contra o mal. É a luta da luz contra a escuridão em si, os elementos-chave do jogo são estes. Alan está em um mundo de escuridão, sem muitos nortes a seguir, somente com o objetivo de reencontrar sua esposa e seus principais aliados são lanternas, “flares”, flare guns”, postes iluminados… enfim, qualquer coisa que emita bastante luz e bote medo na escuridão que o cerca.

O enredo vai se revelando muito aos poucos, e a sensação de desnorteio é gigantesca. É difícil separar a realidade de um pesadelo durante grande parte do jogo. Isso se cria principalmente porque o enredo não se abre de forma direta, mas sim através de folhas de manuscritos que são encontradas durante cada capítulo do jogo, bem como através de cut scenes que surgem, televisores mostrando um Alan todo desequilibrado escrevendo em uma máquina de escrever compulsivamente, entre outros modos.

Alan assistindo a si mesmo na televisão. Bizarro.

Tudo isso auxilia muito para o clima de tensão que Alan Wake pretende apresentar ao jogador: uma trama escura e bastante confusa. É difícil jogá-lo sem teorizar a cada manuscrito encontrado, a cada diálogo ou a cada cena vista. E a teorização não vai parar com o fim do jogo, é o tipo de trama que deixa pensando até fundir o cérebro ou algo macabro do tipo.

E deve-se parabenizar a Remedy por criar um jogo com personagens muito sólidos e vivos. Quem é para parecer louco realmente o parece, quem é sério realmente o parece também. Além do que Bright Falls é uma cidade incrivelmente viva, durante o jogo percebe-se isso ouvindo a rádio quando se encontra um aparelho de rádio pela fase. É possível ficar ouvindo por minutos inteiros o programa do radialista local Pat Maine ou assistindo a uma série de terror e suspense chamada Night Springs em uma televisão qualquer encontrada pelo cenário.

Alice e Wake, felizes por enquanto

Alan Wake é também uma central de referências à cultura de horror e popular, principalmente a Stephen King, que é uma inspiração enorme para o jogo, que inclui algumas citações dele. Hitchcock é outro que está presente, principalmente pelo jogo conter muitos pássaros que atacam o jogador, como no seu filme Os Pássaros. A cidade, Bright Falls, é inspirada no seriado Twin Peaks, situado em uma cidade fictícia em Washington onde estranhos fenômenos ocorrem, como em Alan Wake.

JOGABILIDADE

A jogabilidade reflete o enredo de Alan Wake: é a luta da luz contra a escuridão. Os melhores amigos do jogador na luta contra os diversos takens são lanternas e quaisquer emissores de luz.

Como muitas vezes alertado durante o jogo todo, os takens são envoltos pela escuridão, e esta os faz invencíveis. O jogador deve, portanto, livrar os inimigos da escuridão para, somente então, massacrá-los com balas. O que não é tão simples quanto parece. O padrão é apontar a lanterna focalizando no inimigo desejado e, quando a escuridão sumir, desferir tiros. O que pode ser mudado, obviamente, desde que se encontre outras formas de emissão de luz, como postes (chamados de Safe Havens) ou placas que possuem uma espécie de lanterna ou, ainda, grandes lanternas que são encontradas pouquíssimas vezes durante o jogo, que são a forma de luz mais poderosa do jogo e destroem os inimigos muito mais facilmente.

Lanterna neles!

O jogo possui variedade de lanternas, desde a mais fraquinha até a de serviço pesado, aquelas lanternas grandes que emitem um belo de um feixe de luz, com duração maior de bateria e muito mais potente contra os inimigos. A administração das baterias é muito importante, visto que esta se regenera muito vagarosamente. Um toque no botão Y, no entanto, faz com que Wake recarregue sua lanterna rapidamente com o uso de pilhas encontradas pelas fases. Na dificuldade normal não há tantos problemas em relação a isto, mas o jogo deixa com tanta tensão quem está no controle que pensa-se duas ou até três vezes antes de fazer uma grande recarga na lanterna, pois nunca se sabe onde haverá outras. E lutar contra uma horda de takens com a bateria da lanterna miando não é das coisas mais sábias a se fazer em Alan Wake.

Mas só luz não destrói por completo os takens. Após retirada a escuridão, o jogador deve apontar a arma em mãos e desferir os tiros necessários. Dois tiros de revólver destroem os takens mais fracos, enquanto os brutamontes requerem cerca de quatro ou cinco. Com as shotguns tudo fica mais fácil e os tiros necessários são reduzidos pela metade mais ou menos. Com os takens em volta, atirando ferramentas agrícolas ou facas no jogador, a tensão só aumenta e de repente percebe-se que acabaram as balas e deve-se recarregar. É uma correria só. O botão X recarrega a arma e, quanto mais rápido ele é pressionado diversas vezes, mais rápido Wake recarregará, o que é interessante, pois não torna o reload algo meramente automático.

O desafio maior ao enfrentar um inimigo, no entanto, é com certeza uma espécie de taken que simplesmente some no cenário e só aparecem borrões do mesmo. É um inimigo chato e ligeiramente perigoso, principalmente se o Alan encontra-se cercado por outros inimigos, pois ele “mal pode ver seus movimentos” (seu Ki é de mais de oito mil, só para constar) e, quando percebe, deve focar a lanterna no momento exato, fazendo a escuridão sair lentamente de seu corpo. Este processo é repetido várias vezes contra um inimigo camaleão-corredor deste.

Além destes inimigos comuns, humanóides, há objetos poltergeists: qualquer coisa enfeitiçada, tomada pela escuridão que simplesmente vem voando na cabeça de Wake. É um inimigo que parece bobo, mas é forte (afinal, imagine você, leitor, sendo atropelado por um trator sem ninguém dirigindo, sem o menor remorso) e deve ser aniquiliado o quanto antes, pois vem bastante rápido e geralmente pelas costas. Para derrotá-lo basta retirar toda a escuridão que o possui, focalizando a lanterna ou simplesmente jogando o raio de luz sem focalizar, para evitar o consumo de bateria, mesmo que isto demore mais e possa custar sua vida, claro.

Um objeto poltergeist.

O outro tipo de inimigo são as hordas de pássaros que aparecem em diversos momentos do jogo. Estes também são tomados pela escuridão e vão fazer o que puderem para impedir que Alan avance. São facilmente derrotados, no entanto, com a lanterna ou com um belo tiro de Flare Gun (aliás, a melhor arma do jogo, que explode em centenas de fagulhas extremamente iluminadas e destrói vários inimigos de uma só vez caso estejam no raio de alcance dos raios de luz emitidos), mas deve-se prestar atenção para saber de que lado estão vindo. Olhar o céu é importante neste tipo de ataque.

Malditos pássaros!

O melhor tipo de defesa em Alan Wake, primeiramente, é tentar conhecer o cenário do campo de batalha. Muitas vezes há um gerador por perto que acende um poste e pronto, adeus takens, objetos horríveis e tudo mais. Além disso, Wake conta com Flares, que são pequenos cartuchos que soltam fagulhas de luz intensa, afastando os takens que estiverem rodeando; outra tática boa é utilizar Flashbangs, que são granadas que explodem em uma chuva de luz, tirando bastante dano de vários inimigos, inclusive matando os mais fracos. Alan também conta com um movimento de esquiva, que deve ser executado perfeitamente para que se consiga escapar de um ataque. Se nada disso funcionar, e ainda por cima o jogador se encontrar sem baterias ou balas, que corra por sua vida e reze para o escritor não se cansar e encontrar logo um poste bem iluminado, onde recuperará sua energia vital (esta é regenerativa, bem vagarosamente, quando fora de uma fonte de luz forte).

Um tiro de Flare Gun, letal para os takens.

O jogo é forrado de coletáveis pelas fases, como garrafas térmicas de café (sim, Alan pelo jeito é viciado em cafeína, assim como os moradores que largam as garrafas por lá) e seus manuscritos, que são bastante interessantes de ser coletados se o jogador estiver realmente interessado no enredo do jogo (certamente ele estará). Por isso é importante sempre ir além dos caminhos óbvios (dica dada nas telas de loading do jogo), pois pode-se achar coletáveis e munições.

Por vezes o jogo dará carros nas mãos de Alan, que servem para viajar mais rapidamente de um lado para o outro e também são boas alternativas para se lutar contra os takens. Os faróis funcionam da mesma forma que as lanternas e, uma vez que a escuridão se for dos inimigos, é só atropelá-los (GTA style!). A dirigibilidade do jogo é bem executada e simples, o jogador não terá problemas nem frustrações aqui.

Nem sei de quem é esse carro, mas já que ele tá aí dando sopa...

O maior problema de Alan Wake é o seu pulo. Incrivelmente o controle do pulo é algo que beira o péssimo. Aliás, chega-se até mesmo a cair em esquecimento que em algum momento Alan terá que realizar um salto para não cair em um buraco. É algo pouco utilizado e, quando o é, é falho demais. Alan dificilmente vai pular uma cerca baixa e, quando parece que ele conseguiu, ele somente fica parado por um tempo no ar e cai de volta para onde estava. É frustrante, mais frustrante do que isso é morrer caindo em um buraco que o jogador nem sequer se deu ao trabalho de lembrar que deveria ser pulado. Alan Wake não é platformer e, quando tenta ser, não se utiliza bem disso. Fez algo simples ser uma falha grotesca.

Mas o que deixa Alan Wake viciante e faz o jogador ir avançando cada vez mais são os ganchos que ficam de um capítulo para o próximo, certamente fazendo o jogador ficar curioso para saber o que vai acontecer depois. Excelente, simplesmente.

SOM

O trabalho de som em Alan Wake é simplesmente perfeito. O jogo conta com uma trilha sonora orquestrada que toca a todo momento e se faz bastante presente em batalhas contra os takens.

(On the Run, uma das músicas orquestradas de Alan Wake)

Além da trilha orquestrada, há de se notar o trabalho magnífico da banda Poets of the Fall, que além de interpretar canções de uma banda que existe em Bright Falls – Old Gods of Asgard -, ainda compor a música War, inspirada no jogo e que contém até mesmo um clip baseado no mesmo, chamada War. Outro ponto a se destacar da trilha não-orquestrada são as músicas que tocam no fim de cada capítulo, remetendo bastante aos seriados das tvs americanas, visto que Alan Wake passa como se fosse uma temporada de uma série de tv.

(The Poet and the Muse, diretamente da banda preferida de Bright Falls: Old Gods of Asgard)

A dublagem do jogo é bastante competente, os sons ambientes do jogo também, como tiros, explosões, takens sendo destruídos, e até mesmo ouvir a rádio no jogo é prazeroso, principalmente porque vem a se saber mais sobre o universo do jogo. Enfim, o trabalho sonoro é extremamente bem feito e foi cuidado com muito carinho pelo pessoal da Remedy.

GRÁFICOS

Complicadíssimo falar de gráficos em Alan Wake. Para começo de conversa, a iluminação é extremamente competente. Afinal, deveria ser mesmo, visto que o jogo se utiliza da luta luz contra escuridão. A ambientação do jogo é extremamente bem feita, o movimento das árvores das florestas de Bright Falls, chega a ser palpável a escuridão que está perseguindo Alan, bem como as estruturas da cidade são muito bem feitas.

Iluminação linda.

Por outro lado, Alan Wake é uma chuva de defeitos. A Remedy foi bastante criticada por entregar um jogo Sub-HD, ou seja, em uma resolução nativa menor do que os 720p padrões dos jogos desta geração. Serrilhados vê-se aos montes, texturas feias, sombras granuladas, screen tearing… é até triste ver um jogo com tanto potencial ter um trabalho tão ruim nesta parte. Ok, a Remedy tem menos de cem funcionários, fica difícil e etc, vamos dar um desconto.

O problema realmente maior são as expressões faciais. Elas são praticamente mínimas. O jogador não verá no rosto dos personagens expressões de felicidade, tristeza, medo. Raras são as vezes onde isso é perceptível. É triste também, visto que Alan Wake é um jogo carregado de sentimento e emoções, coisas que não são transparecidas no rosto dos personagens.

Texturas um tanto desagradáveis, além da cara de bobo do Alan...

VEREDITO

Alan Wake é um jogo tenso, de todas as maneiras: na sensação passada ao jogador e em suas falhas técnicas. Tudo é muito tenso, mas as falhas são superadas com pouco custo, visto que a trama e o luminoso tiroteio vai prender bem o jogador, bem como sua sonoplastia maravilhosa.

É muito bom ver jogos como Alan Wake por aí, principalmente porque faz o jogador pensar o jogo todo, prestar atenção em cada diálogo, buscar cada manuscrito para compreender melhor. Com certeza é aquele jogo que dá vontade de se jogar mais de uma vez, para ver se não se perdeu nada pelo caminho.

Alan Wake é um jogo exclusivo para o Xbox 360.

O escritor.

NOTAS

ENREDO: 10,0/10,0

JOGABILIDADE: 8,0/10,0

SOM: 10,0/10,0

GRÁFICOS: 6,5/10,0

NOTA FINAL: 8,5/10,0

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Um pensamento sobre “[Neto’s Review] Alan Wake

  1. muito massa, amo o game, como vc disse, as sombras e cenários são quase palpáveis, mais ele não é exclusivo de xbox não, saiu pra pc tbm rssss
    muito massa sua análise, e as referencias sobre stephen king e Hitchcock foram o que me prenderam no game kkkk

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