[Consciência Gamer] Japão: Problema nos jogos ou nos jogadores?

Saudações galera! Eu sou o novo membro do Jogador Pensante, me chamo Tomio. Postarei reviews e algumas matérias mais voltadas para o oriente. Para começar, postarei essa matéria que fiz sobre o Japão, seus jogos e jogadores – espero que gostem!

Japão: Problema nos jogos ou nos jogadores?

Toda quinta-feira é dia de novidade no mundo dos games. Pelo menos em terras japonesas.

Para um jogador que gosta de estar por dentro de novidades, e, acima de tudo, jogar todas essas novidades, é um dia sagrado, pois todos os lançamentos estarão nas principais lojas de games e eletrônicos (com exceção de Dragon Quest, como sempre).

Pois lá estava eu após mais um dia de trabalho, conferindo o que havia de novo nas prateleiras, quando me deparo com o top 10 dos jogos mais vendidos da loja. E estava dominado, como sempre, por séries tradicionais e outros jogos voltados para toda a família ou para quem tem pouco tempo disponível, categorias implementadas no mercado pelos fenômenos da Nintendo, o Wii e o DS.

Franquia Pokémon, um dos eternos campeões de vendas, independente de sua versão.

“Qual o problema desse top 10?”, é o que a maioria das pessoas pensariam. Nenhum, se esse quadro não estivesse se repetindo por meses, anos, como vem acontecendo.

Estariam as produtoras japonesas em crise de criatividade e competência? Não é o que aparenta ser, com as constantes declarações de produtores japoneses estarem mais satisfeitos com a recepção e vendas de seus jogos em mercado estrangeiro, tendo como exemplo Suda “51” (criador de No More Heroes) e os esforços cada vez maiores de empresas como Capcom e Square-Enix em expandir suas franquias para o mundo todo, vendo que há um gratificante retorno.

No More Heroes 2 sequer foi lançado em terras nipônicas devido ao fracasso comercial no arquipélago.

Mas então qual seria a grande questão? O povo japonês não quer experimentar coisas novas ou diferentes? Preconceito? Alta exigência? Não exatamente. O buraco é mais embaixo e você vai saber o porquê logo abaixo.

O povo japonês é conhecido como um país de orgulho elevado e tradições levadas à risca. Tais características trouxeram glória vencendo guerras e conquistando territórios, e essas mesmas características fizeram com que o país caísse em ruínas na segunda grande guerra mundial.

Com a reestruturação do país após a derrota, o Japão começou a portar uma conduta mais maleável, seja para amenizar a dor de sua população, seja para ter acesso a auxílio de outros países para renascer. Tal característica é vista claramente nos dias de hoje, com a exagerada badalação pelos Estados Unidos e sua cultura, misturando inglês constantemente em vários veículos de comunicação e a ótima recepção de turistas e imigrantes vindos da terra do tio Sam.

Infelizmente, nem tudo são flores. Mudaram a conduta, mudaram os costumes, mas a mentalidade de muitas pessoas continuou a mesma, como se a população tivesse morrido após a guerra. Ainda hoje você encontra mulheres que ganham entre 25 a 35% a menos que um homem fazendo o mesmo trabalho (em casos piores, com trabalho diferenciado), o respeito quase escravo por superiores ou colegas experientes e a incapacidade de reivindicar por seus direitos.

Obrigado a obedecer a ordens de colegas mais velhos na escola, se tornar adulto, trabalhar em um ambiente que não gosta, obedecer a ordens e regras que, por mais que sejam estúpidas e sem sentido, não conseguir reclamar por puro medo, casar e obrigar a mulher a se tornar dona de casa resume a vida de grande parte da população japonesa.

São essas mesmas peças de engrenagem que têm seus filhos delinqüentes ou completos sedentários, e são essas mesmas peças de engrenagem que se tornam idosos egoístas e egocêntricos por terem vivido o que viveram. E é essa mesma população que constitui o consumidor do mercado japonês de hoje.

Franquias consagradas certamente terão mais sucesso, mas o sucesso que beira o absurdo de certas franquias, como Dragon Quest ou Monster Hunter e a quase total repugnância pelo “resto” podem ser causa de vários fatores. Por exemplo, em um RPG online como Phantasy Star Portable, você pode perguntar a razão de jogarem aquilo e você receberá muitas vezes a resposta “esquecer do nosso mundo”, ou jogadores de Dragon Quest, que se fizermos a mesma pergunta, obteremos “pois jogo desde pequeno”, ou “me lembra a infância”, uma notável alienação em alguns casos e a necessidade de uma fuga do estresse noutras, seja em um mundo paralelo, seja voltando ao passado, onde tudo era mais divertido.

Monster Hunter, franquia de maior sucesso no PSP

Mas então o que dizer do sucesso do Wii e do DS, já que eles só querem “mais do mesmo”? A resposta está na marca: Nintendo, a tradicional empresa de videogames japonesa, o que automaticamente explica a péssima recepção dos consoles da Microsoft no país, o que explica baixas vendas de títulos ocidentais mesmo com propostas similares aos de produtoras japonesas e o que explica a grande mudança de grande parte do consumo para jogos casuais e acessórios para os consoles da Nintendo. O medo, ou mesmo o orgulho de não adquirir algo que não seja derivado de seu país faz com que os japoneses se limitem ao que conhecem, mesmo que isso signifique abrir mão de coisas que possam vir a ser interessantes. No final, o “novo” para o japonês é uma verdadeira odisséia para ser experimentada, enquanto no resto do mundo se resume apenas a comprar por ser diferente. Nos resta assistir várias vezes a situações como jogos venderem por ser da Square-Enix, e não por terem qualidade, por exemplo.

Para finalizar a análise do mercado de games oriental, que já foi de grande importância, podemos citar o envelhecimento de seus consumidores, que é inclusive um sério problema demográfico do país. Sem jovens curiosos ou até mesmo conservadores, menos vendas. Quanto mais velhos e atarefados, menos interesse em games ou coisas novas, menos vendas.

No final, o consumidor de games japonês sobrevive devorando mais e mais de suas já desgastadas franquias prediletas, respirando com a ajuda de aparelhos e jogos que praticamente miram outro público e absorvendo, de vez em nunca, alguma novidade ou coisa do exterior só pra variar um pouco a sobremesa.

E a dor de barriga vem para as produtoras, que são obrigadas a abandonar inovações ou mesmo fechar as portas, sobrando para gamers sadios que gostam de curtir uma boa jogatina, limpar.

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7 pensamentos sobre “[Consciência Gamer] Japão: Problema nos jogos ou nos jogadores?

  1. Com todo respeito acho a sua análise muito fraca em argumentos, com exemplos totalmente injustificáveis e uma interpretação bastante falha.

    Medo de adquirir produtos estrangeiros? Orgulho nacional?
    Não se trata disso, tenha a certeza. Não vou discutir aqui como a consciência e – por consequência – as ações do indivíduo se formam, porque o espaço é curto. Muito resumidamente, as pessoas são fruto de sua criação/classe social/religião/etc e uma moldagem da relação entre estes fatores e a sociedade ( leia-se convívio social).

    Ao se propor a analisar um país como um todo, ou até mesmo um nicho, generalizando o pensamento vigente, seu discurso perde força logo de início. A visão estigmatizada ocidental a respeito do oriente é um mal antigo e que parece não encontrar novos ares.

    • Muito obrigado pelo comentário, Rafael. Críticas são muito importantes para que eu possa estar melhorando meus futuros textos.

      Sobre o conteúdo do texto: Meus 10 anos vivendo no arquipélago não me deixam mudar o meu ponto de vista, mas confesso que eu mesmo me questionava sobre todas essas coisas, e o que as pessoas falavam sobre o país sem ter o contato direto necessário (cultural, informativo e social) para definir o povo em questão.

      No final, posso dizer que é como a visão dos estrangeiros sobre o Brasil: um país-selva, ou um país-favela, o que é, ao mesmo tempo, um absurdo e a verdade do ponto de vista do brasileiro estudado.

  2. Sim, a visão estrangeira sobre um país – principalmente aqueles que são estigmatizados como centros turísticos (aqui se encaixam tanto o Brasil, quanto o Japão, afinal, o turismo tecnológico/cultural existe) – nunca é a mesma visão que os próprios natos têm. Essa herança da crescente febre antropológica dos anos 60 só nos mostra como as pessoas olham para outros povos com óculos bastante tendenciosos, trazendo para si a análise do outro, para mostrar uma diferenciação entre a cultura analisada e a cultura em que vive. Veja como isto se torna claro quando você afirma que no Ocidente as pessoas compram jogos “apenas” por ser diferente. Se tomarmos uma visão crítica dessa análise, isto pode ser considerado tão ruim quanto a sua afirmação do tradicionalismo cego.

    No entanto, pontos são feitos para serem debatidos e, como tal, eu agradeço por sua resposta e lhe dou as boas vindas.

    Um abraço!

    • Ah sim, mas deve-se levar em conta que esta é uma análise de apenas um dos lados e não um debate comparativo entre nações diferentes, por isso a razão de estar usando termos e generalizações não-aprofundadas quando se trata dos “não-japoneses”. Mas de fato poderia ter evitado interpretações tendenciosas com uma escolha melhor de palavras. Mais uma vez, obrigado pelo comentário.

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