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28
jul
12

[Consciência Gamer] Uncharted e seus mundos não cartografados

Provavelmente você já ouviu falar de pelo menos Atlântida, a lendária ilha que foi pela primeira vez comentada por Platão, um dos maiores filósofos que já viveram. E é de senso comum que, se um dia Atlântida existiu, ela afundou no oceano. E em um único dia.

Ninguém nunca viu Atlântida. Ou El Dorado, Shambhala e a Atlântida das Areias. Mas Nathan Drake nos deixou ver e interagir com uma recriação digital das três em suas aventuras na série Uncharted, com muita riqueza de detalhes e com vários takes cinematográficos, sempre dando ênfase à beleza lendária das cidades.

Drake’s Fortune e O Homem Dourado

El Dorado é o nome de um chefe tribal Muisca que teria se coberto em poeira de ouro e mergulhado em um lago de terras altas, como ritual. Depois disso, o nome se tornou uma referência para algum lugar mitológico e desconhecido, onde um rei de ouro governaria.

O ritual de El Dorado representado em uma escultura a ouro.

A cidade fascina desde as viagens dos espanhóis para a Conquista da América, chegando ao ápice dos exploradores Francisco Orellana e Gonzalo Pizarro partirem de Quito, no Equador, em 1541 em uma viagem pelo Rio Amazonas, procurando a tão sonhada cidade do ouro.

Obviamente foi um desastre, mas outros exploradores até mesmo foram mais longe e um deles, Sir Walter Raleigh, em 1595, descreveu El Dorado como uma cidade às margens de um lago chamado Parime, na Guiana. E o senhor Raleigh foi tão eloquente em sua versão da cidade que o tal lago foi impresso em mapas até o início do século XVIII! Sua inexistência foi provada por Alexander von Humboldt durante sua expedição (1799 – 1804).

Em Uncharted: Drake’s Fortune, El Dorado se transformou não em uma cidade, mas sim em um sarcófago de puro ouro e jóias, que possuía uma terrível maldição. Atiçado pelo diário de Francis Drake e também por sua sede de ladrão, Nathan Drake parte em busca de El Dorado, acreditando ser realmente uma cidade perdida. O jogo leva então o jogador a diversas belas paisagens por cenários da América do Sul, até chegar a um templo amazônico onde o sarcófago se encontrava.

El Dorado

Apesar de El Dorado não ser uma localização, o jogo ainda apresenta as noções de paraíso e cidade perdidos, com muitas ruínas com vegetação invadindo, tudo em um solo cheio de mistérios, que é o do coração da América do Sul, nas proximidades da Floresta Amazônica.

Uma das localizações de Drake’s Fortune

Among Thieves e a cidade esotérica

Shambhala não é lá um nome muito conhecido. Talvez você se lembre de Shangri-La, que certamente ouviu esse termo em alguma época de sua vida. O negócio é que Shangri-La é um lugar fictício, harmonioso e místico citado pela primeira vez em Lost Horizon, uma novela escrita por James Hilton. A inspiração para escrever sobre a cidade veio de Shambhala.

Os budistas tibetanos acreditam que Shambhala seja um reino místico escondido em algum lugar da cordilheira do Himalaia. A cidade seria um “lugar de paz, felicidade e tranquilidade”, que é o que Shambhala significa em sânscrito. E para os budistas, hinduístas e taoístas, a cidade seria a capital de outro reino místico ainda maior: Agartha (que você pode conferir em Castlevania Lords of Shadow), que é constituída por oito cidades místicas.

Há várias versões de Shambhala em imagens.

Segundo a crença, Shambhala só podia ser vista por homens com um karma bom, sendo este o significado manifesto da cidade. O caráter oculto dela é de que não seria um local terreno, com acesso geográfico, mas sim um lugar interior, de caráter moral e mental, ou, ainda, um estado de iluminação a que toda pessoa deva inspirar alcançar.

Mas ainda em relação à aparência de Shambhala, segundo o Kalachakra (tempo-ciclo, em sânscrito) budista, esta mudaria conforme o estado de espírito do observador, como escrito por Andrew Tomas em Shambhala – A misteriosa civilização tibetana: “por exemplo, certa ribeira, pura e simplesmente a mesma, pode ser vista pelos deuses como um rio de néctar, como um rio de água pelos homens, como uma mistura de pus e sangue pelos fantasmas esfomeados, e por outras criaturas como um elemento no qual se vive”.

Sua misticidade foi tão difundida que até mesmo ocultistas ligados aos nazistas se interessaram por ela, mas como fonte de poder. E é nessa linha que entra Uncharted: Among Thieves, a segunda aventura de Nathan Drake.

No jogo, Nathan está trabalhando com uma perigosa equipe que está em busca de uma pedra misteriosa chamada Cintamani Stone, que traria poderes enormes a quem a possuísse. Isso causa enorme desastre durante sua busca, até que Nathan descobre a belíssima cidade de Shambhala, onde estaria a pedra.

A entrada de Shambhala em Among Thieves.

Diferente de ser um lugar de paz e tranquilidade, governado por um rei bondoso, o que se descobre é uma gigantesca cidade com inúmeros monumentos e edifícios tomados pela natureza, com guardiões extremamente fortes e poderosos que procuram proteger a cidade a qualquer custo. Talvez algum dia ali essa cidade já tenha sido da forma como os escritos budistas e hindus contam.

A cidade perdida

Drake’s Deception e a cidade na tempestade de areia

De todas, Iram of the Pillars (Irão dos Pilares) talvez seja a mais desconhecida. Também chamada de Atlantis of the Sands (Atlântida das Areias) e Ubar, a cidade foi descrita pela primeira vez há mais de 1400 anos, pelo famoso livro sagrado do Islão Alcorão.

Segundo as crenças islâmicas, o Rei Shaddad de Ubar não acreditou nos avisos do profeta Hud e Deus destruiu a cidade, enchendo-a de areia, para nunca mais ser vista. Acredita-se que as ruínas da cidade ficaram soterradas em algum lugar do deserto de Rub’ al-Khali, na península arábica. A difusão no ocidente de Iram of the Pillars foi principalmente com a tradução do Livro das Mil-e-uma Noites, um dos épicos mais conhecidos da literatura árabe.

Durante algum tempo, acreditou-se ter encontrado a cidade através de escavações feitas pela NASA em um local de poço dos beduínos em Shisr, no Omã, realizadas no início de 1990. Em 1996, outro grupo de pesquisadores desmentiram o feito e disseram que talvez Ubar fosse a atual Habarut, uma cidade do Iémen.

A possível Ubar da NASA.

Foi somente em 2002 que um geólogo concluiu que o local escavado pela NASA não era Iram of the Pillars, mas sim somente um oásis e que a possível ruína de forte encontrada era somente uma construção pequena utilizada por poucas famílias.

Em Uncharted 3: Drake’s Deception, Nathan Drake vai atrás da cidade mais uma vez baseado no diário de Sir Francis Drake. Envolvido em uma trama de crimes maior do que ele, através de uma sociedade secreta, Nathan acaba até mesmo se perdendo e vagando pelo deserto, até encontrar uma trupe de beduínos do deserto e, posteriormente, encontrar Ubar, uma cidade gigantesca, com muitas construções e com sistema de irrigação bastante moderno, o que teria possibilitado a vida no lugar, segundo observado pelo próprio Nathan.

Entrando em Iram of the Pillars.

As aventuras de Nathan Drake conseguem nos levar a lugares fantásticos e extremamente bem construídos. Vale a pena jogar e chegar ao final pelo menos para observar estes mundos jamais vistos por ninguém, mas que habitam o imaginário de muita gente há muito tempo.

12
set
10

[Neto's Review] Uncharted 2: Among Thieves

“There is no trust, no loyalty, no honor among thieves”

Capa do jogo

ENREDO

Uncharted 2: Among Thieves é a segunda aventura de Nathan Drake, um provável descendente do antigo explorador Sir Francis Drake. No primeiro jogo (Drake’s Fortune), um dos primeiros títulos exclusivos para o Playstation 3, Nathan estava em busca de El Dorado, o famoso e mitológico paraíso perdido. Já no segundo jogo, Drake está em busca da Cintamani Stone, uma poderosa pedra que se encontra no coração de Shambhala, outro paraíso perdido (também conhecido como Shangri-La).

Drake, porém, não está atrás da pedra para si, mas sim para deter um psicopata de marca maior (Lazarevic) de adquiri-la, e, assim, tornar-se extremamente poderoso a ponto de dominar o mundo e essas coisas que grande parte dos vilões de videogame adoram. Clichês à parte, Among Thieves tem uma trama extremamente divertida e até cômica. Nathan é o tipo de protagonista que nunca se deixa abater, que, mesmo se ferrando cada vez mais conforme o jogo passa, sempre mantém o bom humor em quaisquer situações.

O enredo de Uncharted 2 não é nada profundo, é, na verdade, como assistir a um bom filme de aventura com bastante tiroteio e cenários maravilhosos. É aquele tipo de trama previsível, que você sabe que o protagonista vai se dar bem e que o vilão vai acabar preso ou morto, mas mesmo assim é bom de se assistir ao desenrolar da trama, pois rende diversão e, inclusive, gargalhadas.

Por ter esta veia mais cômica e despreocupada, Uncharted 2 consegue fazer com que o jogador tenha grande afeição por seus personagens. Os diálogos são muito bem elaborados e acentua bastante o jeito de ser de cada um. Drake é com certeza um dos personagens mais carismáticos da geração e, apesar de ele, na realidade, ser um ladrão de tesouros, passa a imagem do bom moço, que, mesmo sobrevivendo de maneiras escusas, tenta fazer sempre o melhor para a felicidade geral. É um personagem muito bem trabalhado e definido, divertindo a todo o momento o jogador, que cria um elo de afeição ao seu bom caráter. É o tipo de personagem descolado e que não está ligando muito para tudo o que acontece à sua volta, sempre tendo uma frase meio boba para tornar a situação mais leve, procurando se tranqüilizar. Inclusive sua vestimenta declara o jeito despretensioso: Drake usa calça jeans ao invés de um uniforme militar ou uma roupa mais voltada para um combate, por assim dizer.

Sully, Chloe e Nathan

JOGABILIDADE

Uncharted 2, assim como o primeiro jogo, apresenta-se como um Third Person Shooter. E é um jogo deste gênero apresentado de sua melhor maneira. Drake tem uma movimentação muito fluída e o tiroteio funciona perfeitamente. Nathan deve sempre procurar esconderijo para realizar seus tiros, e isto funciona muito bem: o sistema de cover do jogo é excelente, podendo Drake se esconder em praticamente qualquer pedaço do cenário, desde uma parede, até atrás de caixas, pilares, dependurado em uma janela e etc.

Tiroteio bem realizado

Para finalizar seus inimigos, Drake conta com inúmeras armas, desde pistolas, revólveres, metralhadoras, shotguns, rifles e etc, mas isto já é de lei neste gênero. O jogador pode carregar no máximo uma arma de cada tipo, ou seja, apenas uma pistola ou revólver e apenas uma arma grande, como shotguns ou rifles, porém trocá-las é muito fácil e rápido, visto que os inimigos também apresentam um vasto arsenal, de onde Drake pode ou carregar mais munição caso o inimigo utilize uma arma que esteja nas mãos do protagonista ou trocá-la, caso seja uma arma diferente. Além de armas de fogo, Nathan também possui granadas, e estas são importantes durante o jogo, pois os inimigos apresentam diferentes formas de proteção e as granadas podem facilitar para enfraquecê-los, ou simplesmente podem ser usadas para acertar vários inimigos que estiverem próximos uns dos outros. A inteligência artificial dos inimigos também merece destaque, aumentando cada vez mais, dependendo da dificuldade escolhida pelo jogador, aumentando o desafio cada vez mais.

Nathan pode até mesmo utilizar Riot Shields, caso os encontre

Todo este tiroteio funciona de forma bastante simples e fluída, devendo o jogador pressionar L1 para Drake entrar em modo de mira (fazendo isto ele deixa o cover e fica vulnerável, mas são ossos do ofício) e com o R1 realiza os disparos, utilizando o analógico esquerdo para movimentar a mira. Utilizando-se o L2, Drake lançará a granada no local onde a mira estiver apontando (ou o mais próximo possível, visto que o protagonista de Among Thieves não é nenhum Super Homem para jogá-la com muitíssima força). O jogador também pode utilizar-se de tiros cego e lançamentos de granadas cegos, apenas apertando o R1 (sem segurar o L1) para iniciar os disparos sem mirar, o que faz com que os tiros saiam espalhados, porém isto é importante caso o Nathan esteja morrendo e um inimigo poderoso esteja avançando em sua direção. O mesmo vale para granadas, neste caso é apenas necessário pressionar o R2 sem mirar antes.

Nem só de tiroteio vive Drake, que também é perito em descer a porrada. Não é nada complexo o sistema de combate corpo a corpo do jogo, basicamente o jogador deve apertar bastante o botão “quadrado”, executando vários combos e pressionar “triângulo” quando o inimigo estiver prestes a te dar um golpe mais forte. Nathan também é um personagem bastante furtivo e, apesar de haver poucas partes inteiramente “stealth” no jogo, é possível realizá-las, eliminando alguns inimigos antes que o resto do exército de mercenários de Lazarevic o veja e comece a alvejá-lo.

Nathan executando um inimigo silenciosamente

Combate corpo a corpo

O jogo também apresenta alguns puzzles, porém todos bastante fáceis, bastando Nathan abrir o seu diário, que contém informações preciosas sobre as culturas dos locais onde ele passou. Há alguns elementos plataforma no jogo também, e Nathan é um excelente alpinista, sempre escalando muros, aproveitando-se de falhas nas construções, tudo isto tendo uma jogabilidade bastante fluída e intuitiva.

Um dos puzzles de Uncharted 2

Nathan se vira com o que tiver por aí

Among Thieves é um jogo que não procura frustrar o jogador, buscando um controle simples, porém bastante funcional. E é tudo o que o jogador procura hoje em dia, uma jogabilidade divertida e fluída, sem frustrações.

SOM

Uncharted 2 apresenta uma das melhores trilhas sonoras da geração, com músicas orquestradas de grande qualidade e que casam perfeitamente com o clima de cada parte do jogo, desde uma música mais ambiente para momentos de exploração até músicas dramáticas e pesadas para confrontos mais perigosos.

O trabalho de dublagem é outro que merece medalha de ouro, as vozes dos personagens são maravilhosas e ajudam bastante no clima cinematográfico que Uncharted 2 pretende apresentar ao jogador. As vozes casam com o movimento labial perfeitamente, aumentando o realismo do jogo.

Sons ambientes, de explosões, tiros, conversas paralelas dos inimigos, ameaças e etc também são muito bem feitos, o que só faz aumentar a diversão proporcionada pelo jogo.

Enfim, só é possível elogiar o trabalho sonoro do jogo, que com certeza foi feito com extremo esmero e dedicação por parte dos produtores do jogo.

(Nate’s Theme 2.0, a música tema de Uncharted 2)

GRÁFICOS

Among Thieves possui um dos melhores gráficos de consoles da geração. O exclusivo do Playstation 3 certamente mostra todo o potencial gráfico que o console possui, a Naughty Dog com certeza estudou a fundo todas as possibilidades do sistema do PS3.

O trabalho de iluminação do jogo é soberbo e auxilia bastante na imersão do jogo. Muitas vezes o jogador vai se deparar largando o controle para apenas apreciar um cenário extremamente bem feito, muitas vezes apresentado com uma câmera mais intimista, deixando Drake em segundo plano e focando mais na grandiosidade e detalhamento do cenário, tudo bastante colorido e rico, fazendo os olhos do jogador brilhar.

Assim como os cenários, as expressões faciais também foram extremamente bem trabalhadas: Uncharted 2 possui um dos melhores trabalhos de expressão da geração. Os personagens todos foram muito bem trabalhados, inclusive o efeito molhado se faz presente, deixando-os encharcados muitas vezes, quando o jogo apresenta, por exemplo, chuva. Até mesmo a neve suja as calças e os sapatos de Nathan. Tudo feito com muita dedicação, tudo de babar, simplesmente.

Expressão facial de Nathan

Explosões, cenários desmoronando e etc é sempre tomado de uma câmera que procura sempre ter um ângulo cinematográfico e funciona bastante, conseguindo prender a atenção do jogador, que passa a se tornar um espectador, não a ponto de se aborrecer, mas sim de ficar embasbacado, de queixo caído com toda a apresentação dos momentos. Épico, simplesmente épico.

Cenários fabulosos

Cenários bem trabalhados

VEREDITO

Uncharted 2: Among Thieves é um jogo que mostra exatamente o que a geração precisa: um enredo sólido e que entretenha o jogador e uma jogabilidade fluída, sem frustrações e viciante. Nathan Drake é um protagonista carismático e com um caráter bem definido, o que faz com que o jogador afeiçoe-se à sua pessoa.

Tudo isto combinado a um trabalho de som extremamente bem produzido e uma qualidade gráfica dificilmente vista na geração, elevando os padrões do Playstation 3. Quem jogou Uncharted 2: Among Thieves, dificilmente vai aceitar jogar algo genérico e de qualidade duvidosa futuramente. Um must have do sistema e um must play para qualquer jogador que aprecie um bom tiroteio estratégico, um enredo divertido e um excelente trabalho gráfico e sonoro. Que venha Uncharted 3!

Uncharted 2: Among Thieves está disponível para Playstation 3.

Nathan Drake

(Trailer de Uncharted 2: Among Thieves)

NOTAS

ENREDO: 9,5/10,0
JOGABILIDADE: 10,0/10,0
SOM: 10,0/10,0
GRÁFICOS: 10,0/10,0
NOTA FINAL: 9,9/10,0




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