Não adianta bater o pé: é difícil encontrar uma garota que jogue videogame. Não sou pedagogo, psicólogo e nem nada, mas vou dar a minha opinião sobre os motivos disso. Primeiramente, temos que saber que desde sempre é praticado o “isso é coisa de menino” e “isso é coisa de menina”.
Desde a maternidade essa separação já é feita: o menino usa azul e a menina, rosa. E quando vão crescendo, as coisas continuam assim: o primeiro ganha um carrinho e a segunda, uma boneca. E enquanto o garoto ganha um videogame de Natal, a menina ganha algo “mais apropriado a ela”.
Veja bem, eu não estou defendendo esse tipo de segregação – hoje tão combatido. Estou apenas colocando o que acontece em quase todas as famílias. Dificilmente – para não dizer nunca – você vê um garoto brincando de boneca. Ao passo em que é raro o pai que presenteia a filha com um videogame. Mas é claro que há as exceções à regra: garotos que brincam de boneca e garotas que jogam videogame desde que se têm por gente.
Veja nesse vídeo uma garotinha questionando essa diferenciação.
Conforme vão crescendo, também, tomam gostos bastante distintos. Tudo devido à criação dada em casa. Garotas abandonam a boneca (e qualquer brinquedo) bem mais cedo do que os garotos largam seus carrinhos e seus controles de videogame. Já diz por aí o manual da vida que a mulher emadurece bem mais cedo do que o homem.
E mesmo com essa linha que separa o menino da menina quanto ao que é ou não é de cada gênero ficando cada vez mais invisível, ainda hoje há dificuldade em encontrar garotas que gostam de jogar videogame. Mas o cenário está mudando. Justamente porque o mundo dos videogames vem passando por mudanças claras.
Não é incomum encontrarmos grandes comunidades de garotas que jogam jogos sociais. Quem não se lembra da Colheita Feliz do Orkut? E no Facebook então, há milhares desses joguinhos, todos baseados na cooperação entre os jogadores (ou no pagamento para obter regalias). Querendo ou não, jogos de manutenção de cidades, fazendas, e outros, são basicamente simuladores. Dois grandes exemplos de grandes jogos dessa categoria são Sim City e The Sims. E sabemos como esse segundo fez sucesso entre as mulheres. Até mesmo minha mãe, que não jogava videogame nem nada, gostava de criar sua casa e manter sua família. Muitas amigas também jogavam.
Penso que, por esse perfil, a mulher gosta de um jogo onde ela cria e organiza. Ao passo em que o homem normalmente não tem paciência para isso. Sempre li por aí que a maior diferença do homem para a mulher jogando The Sims era que o homem sempre estava aprontando pra cima de sua família: fazia a piscina e tirava a escada, colocava fogo na casa e muito mais… só para ver o tormento (e Sim City e seus desastres, nem se fala). Isso cria um maior desinteresse do sexo masculino por jogos desse tipo, pois o jogo não avança quando se age como um destruidor. Nesses jogos sociais de browser, pior ainda.
Outro fator que ajuda para isso são os jogos mobile. Angry Birds, Jetpack Joyride, Temple Run: jogos simples e que vão direto ao ponto, sem muito lenga lenga e, o mais importante: descompromissados. São meros passatempos, onde o jogador (normalmente) não vai se aprofundar e nem perder horas e horas de sua vida dedicando-se a passar de fase. São jogos feitos para uma fila do banco, ou enquanto se espera o dentista. E hoje em dia, com celulares e tablets cada vez mais modernos, esses jogos baratos (ou até mesmo gratuitos) são uma mão na roda, e todo mundo tem. Incluindo as mulheres.
Há de se concordar que esses jogos não são o que estamos acostumados hoje. Eles são muito mais baseados no score do que na evolução gradual do jogo. São jogos de “bater a pontuação”, e não jogos de chegar nos próximos desafios. Nesse sentido, são como uma volta às origens, lá no velho Atari, onde tudo o que importava era fazer pontos e mais pontos em grande parte dos jogos. Essa simplicidade hoje, ao toque da mão ali, no seu celular (e não em um dispositivo dedicado – como um console), é muito atrativa para públicos que não jogam videogame normalmente.
Outro ponto a se destacar, agora em relação a consoles atuais, é o Wii. Sua premissa de jogos mais simplificados, baseados no movimento corporal, foi um grande atrativo para o público feminino. Just Dance é largamente jogado por elas, especialmente no Wii. É só pesquisar no Youtube e você verá que vários resultados com os termos Just Dance será de garotas dançando. E aí pode-se colocar Wii Sports, WarioWare e afins: jogos onde pressionar botão é algo secundário, quase inexistente. Essa dificuldade de vários botões e comandos é uma enorme barreira e afasta quem não está acostumado a jogar. E como os jogos existem há mais de 30 anos, há de se convir que para pegar o jeito leva tempo. O Wii quebrou essa barreira e trouxe até mesmo a sua avó para a sala para dar umas raquetadas no Wii Sports.
E como hoje o mundo é muito informatizado e tecnológico, todos esses gadgets estão ao alcance fácil de qualquer um (apesar do preço): o iPod, o tablet, o celular com Android, e até mesmo o Wii. Isso traz também alguns problemas graves. Porque hoje todo mundo é gamer.
Veja bem, eu tenho completo nojo pelos termos gamer e nerd. E hoje em dia tem tudo isso por aí, até mesmo dividido em facções: casuais, hardcores, e nerds que se chamam de geeks. Acho todo rótulo nesse sentido uma bela porcaria, e normalmente quem enche o peito para falar “sou gamer” na verdade não joga nem Tetris. Defendo meu argumento da seguinte forma: não é porque você lê com frequência que você sai pela rua se proclamando o maior leitor de todos os tempos, e nem mesmo criou uma alcunha como “reader”.
E hoje é status ser o “nerd gamer mais descolado da parada, mais geek que Dom Pedro I de galochas”. Óculos de armação grossas, roupas com referências a conteúdo “nerd”… tudo isso hoje é impulsionado e somos constantemente bombardeados com esse tipo de item, especialmente pelo Facebook. E isso cria os famosos posers.
Poser existe desde que o mundo é mundo. Há posers de música, de filmes e até mesmo aqueles que bancam de estudiosos mas nunca passam da introdução dos livros que citam por aí. Não seria diferente com os videogames. E vemos largamente mulheres fazendo isso. Pelo Facebook é comum ver aquela garota vestida com uma blusinha rasgada com o símbolo do Flash, com um óculos de armação grossa, mordendo um controle de um Xbox 360, toda sexy.
Quem gosta de videogame, vê isso e dá risada. Está claramente nessa foto estampada uma poser, que busca um status diferenciado por se definir como gamer. Eu sou da época que ser nerd era algo pejorativo. Hoje, quem não é nerd está por fora de tudo o que é master blaster cool. Quem não gosta de Star Wars merece a morte hoje em dia, na cabeça desse pessoal.
Em meio a essa onda de “poserismo”, surgiu uma matéria do UOL Jogos chamada O que as mulheres gostam de jogar?. Isso já faz um tempo. Mas a matéria, ao invés de ajudar e mostrar que SIM, HÁ MULHERES QUE JOGAM VIDEOGAME, resolveu ridicularizar e mostrar que não, mulher não entende nada de jogos eletrônicos.
Na matéria, várias mulheres são entrevistadas. Há poucas que demonstram algum conhecimento de jogos mais elaborados, mas as outras mal sabem os nomes dos jogos e a forma como a matéria foi editada tende a mostrar uma visão preconceituosa e mesquinha por parte do site. Parece que selecionaram justamente as garotas que não sabiam nada do que estavam falando, que não têm muito interesse pela mídia, e colocaram algumas poucas que entendem ali só para “inglês ver”.
Veja a terrível matéria do UOL Jogos.
Esse preconceito tem de ser erradicado. Videogame hoje está se expandindo cada vez mais, e não é assim tão raro encontrar uma garota dando headshots no cara mais viciado em Call of Duty pela Xbox Live. O problema é que a surpresa que existe em ver uma mulher jogando é tão grande que o comum é os homens juntarem em volta e hostilizarem ela a um ponto ridículo, xingando, mandando voltar para a cozinha, ou mandando cantadas e flertes dignos do Zé Bonitinho (mas esse aí tinha o dom e pegava todas na Praça é Nossa).
Essa surpresa é maior ainda quando se encontra pessoalmente uma garota que realmente gosta de videogames em todos os âmbitos. Não é incomum eu ouvir de amigas que jogam videogame que, ao entrarem em uma loja e procurarem determinado jogo, o vendedor ficar perplexo e encantado de encontrar uma mulher que joga videogame e quer o jogo para ela, e não para presentear o namorado com o Assassin’s Creed III.
As mulheres estão conquistando seu espaço cada vez mais em absolutamente todos os lugares. E isso não é diferente nos videogames, onde elas estão jogando jogos que são considerados “de macho”. Esse interesse delas é lento e depende bastante da criação que recebem, porém a acessibilidade hoje é bem maior e há um leque de opções enorme, seja em consoles, seja em tipos de jogos. A diferença entre um Heavy Rain, um Super Mario Galaxy 2 e um Call of Duty: Black Ops II são enormes, e isso só ajuda para o crescimento da comunidade feminina jogadora de videogame. Acho que o futuro é promissor. E rosa.




































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